O exótico ou chuva de verão

Éramos selvagens. Esgotados pela macicez sôfrega de um oceano que se deixava engolir pelo céu, discutíamos políticas pessoais, deixando o mundo acabar-se longe desse pequeno paraíso de que só queríamos abdicar.

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A textura rude da areia mal mastigada exfoliava a pele engelhada das nossas pernas. Tremíamos. O sol, essa nesga macérrima de luminosidade, brincava entre a escuridão completa e a profunda anomia meteorológica.

“Achas que vai continuar a chover?”, perguntava-me a mulher já não tão jovem de calções a meio gás e biquíni molhado. “Não chove mais”, respondia-lhe, sentindo a leve pressão do céu na superfície calma do oceano. Éramos seres literais da água.

Pouco depois, os meus dedos, cuja camada perfeitamente pensada de verniz coral arriscava um olhar delinquente, percorriam a distância nua entre a praia e o estacionamento, temendo o dilúvio num perfeito dia de verão (tiremos-lhe o calor e a luz própria, mas acreditando que o bom exótico é o não convencional dificilmente poderíamos esperar o desfraldar do Algarve num recanto escondido da ínsula.)

Os nossos cabelos sabiam a maresia, as nossas mãos a lençóis gastos de sal e simplicidade. Éramos selvagens perdidos num mundo sem dó das solas sensíveis dos nossos pés ou dos nossos fracos corações que não sabiam aguentar tamanha felicidade. 

Depois, a relutância quase se esgotava, num truque baixo de sedução. “Isso porque não chove num sítio quente”, comenta um amigo, mal adivinhando a marca solene dos nossos bronzeados carmesim que só a inexistência de apelo solar sabe garantir.

Respirávamos água, escutando o bater cardíaco dos fios encharcados do nosso cabelo e o escorregar dos nossos pés sobre o oceano dormente.

Éramos selvagens, contentes, incapazes de traçar visivelmente o contorno sofisticado das nossas olheiras. 

A preguiça aspirava quantidades copiosas de neblina: dávamos biberons no beijo do precipício, bebíamos água amornada pelo bafo da ilha, gritávamos de dor ao sentir o peso das pernas cansadas pelo Atlântico sôfrego.

Éramos selvagens: enfim felizes, desligados da vida, do mundo afogueado, da destruição em directo. No peito, levávamos pedaços incontornáveis de  um paraíso que queríamos só nosso: extensões reservadas de areia e poças translúcidas de sonhos egoístas.

“A estranha verdade sobre Alfred era que o amor, para ele, era uma questão não de aproximar, mas de afastar”, murmura Franzen à distância.

Estou deitada sobre a superficial irregular do manto inacabado do arquipélago. “A verdade estranha sobre mim, Franzen, é que o amor é-me uma questão não de aproximar, mas de deixar à distância”, sussurro. “Nesse limbo apaixonado que não me deixa dormir”, acrescento, ouvindo o assalto da perfeita solidão.

“Amo-te e tenho saudades. Não me perguntes porquê.”

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