Amoras ou sair da ilha é ficar nela

Partilho a alma com o arquipélago. À deriva, ouso o bálsamo da cidadania mundial, sentindo a dor que é não ter a língua azulada pelos quilos inesgotáveis de amoras e carinhos que só a ilha sabe dar. Porque a insularidade nos está no sangue:

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As unhas azuladas pelo alimento consumido em excesso roçavam desconfortavelmente a porcelana gasta do fundo da pequena malga. Nós, de calções carcomidos e pés no chão, aspirávamos amoras, franzindo o sobrolho à doçura selvagem das aventuras que a ilha nos oferecia sem reserva.

Éramos ilhéus: pequenos rochedos especiais deixados por nossa conta no grande mar que era a liberdade de outros tempos. Éramos ilhéus: seres iluminados pela humidade pegajosa que nos impedia a respiração.

Depois, a besta metálica arrancou-nos desse oceano tranquilo, depositando-nos num tempo que nem aos monstros parecia obedecer. Comíamos amoras: novelos desidratados de sabor rigorosamente controlado que nos fazia doer os dentes.

Nós, magros da vida que um dia tremera sobre a pele velada pelas gotículas da transpiração inevitável, sorríamos, gritando intimamente a rotura desse elo que se recusava a partir.

“Sair da ilha é a pior maneira de ficar nela”, sussurrava-me Daniel de Sá. Sorria-lhe, beijando-lhe as faces inocentes com a soberba de quem sabia melhor, de quem se sabia confortável somente na distância. Abraçava-o, confortando a sua ingenuidade. “Sair da ilha é a melhor maneira de ficar nela”, murmurava, convicta de que na bagagem levava finalmente apenas o melhor de mim e um oceano engarrafado de possibilidades.

Comíamos amoras, como quem devora pipocas ainda antes do filme começar: em puro êxtase e ansiedade.

Tremia-nos a ilha nas solas dos pés. “Isto é um tremor de terra?”, perguntei-lhe do outro lado da cama. A minha silhueta pequena e rechonchuda enchia as trevas da infantilidade mais preciosa desta vida. “Não é nada. Volta a dormir”, disse-me a minha irmã, enrolando quilos de lençóis e cobertores em torno das maçãs definidas que viria a invejar. “Não é nada. Volta a dormir”, repetiu, ainda antes de eu acordar e descobrir que o estremecimento sobrenatural da janela era não mais do que o respirar da insularidade.

Éramos ilhéus:  unicórnios julgados por um sotaque que de nós fazia estrangeiros no nosso próprio país; seres da terra, dessa temperatura animal que borbulhava, desse piar mansinho e rugir desprevenido das lagoas da nossa infância.

Os nossos olhos eram verdes do reflexo inusitado do costume. Infelizes sempre. Incapazes de escutar essa ligação.

“Sair da ilha é a pior forma de ficar nela”, digo, fitando o fundo delicioso da minha ordem rotineira no café do outro lado da rua. “Precisa de recebido?”, gargalha o empregado. “Não, obrigada”, dito, sorvendo a modernidade como quem estanca uma ferida que não se quer calar.

Chip senta-se ao meu lado. “Quatro páginas, juro-te”, beijo-o, para logo depois o abandonar e regressar ao pedaço inextinguível desse arquipélago que me corta a respiração.

“Amo-te e tenho saudades. Não me perguntes porquê.”

Para ouvir: In principio de Einaudi 
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3 pensamentos sobre “Amoras ou sair da ilha é ficar nela

  1. Desde que te conheço ( já no secundário) mostravas vontade de levantar voo para destinos que não te isolassem como a nossa ilha. Pairava na tua existência, uma ânsia por abandonar a ilha e a insularidade e conseguir- finalmente- chegar aos teus objetivos e desejos [ que não seriam deveras minimamente alcançáveis na ilha ou arquipélago]. Sei que, nem de longe nem de perto ( como se diz) te arrependes de levantar voo, mas sei que [ainda que de inicio não fosse o teu desejo] tens saudade da ilha e das suas características/especificidades. Vê-se pelos teus posts uma certa reminiscência, talvez da inocência que é viver na ilha e de um momento para outro ser atirada para uma selva urbana, onde um ” bom dia ” no metro é difícil de ouvir. Digo mesmo, que o que nos sufoca é o que nos conforta [ no caso dos ilhéus]. E por isso mesmo acho que tens toda a razão : “sair da ilha é a pior maneira de ficar nela”.
    Boa sorte! Sei que essa selva urbana não te domará, aliás serás tu a domá-la.
    Votos de sucesso 🙂

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