O melhor do que está para vir é a confusão de hoje?

Calhamaços bolorentos dividem a cama comigo. Lá dentro, Paris ao entardecer dá as mãos às manhãs gélidas de Londres. “A memória é a minha carcaça”, digo-lhe eu antes de sentir o duro golpe dessa arma imprevisível: o inexistente vocábulo que é a adultez.

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Dez cubos de vidro fortalecido coam a luminosidade mortiça. Sobre o estrato gasto, lençóis roçados pelo descuido vomitam horas infinitas de insónia. “Já passava das duas da manhã, mas eu continuava extremamente desperta”, voltava a escrever a figura de pernas suaves. Um círculo perfeito rasgava as duas décadas de respirações falhadas e perfeita solitude.

Ah a adultez: os poemas, os gritos, as lágrimas e os abraços esvaziados entre o ideal primeiro momento de insónia produtiva e o actual desespero ao ser incapaz de desligar.

Ah a adultez: uma corrida diária, uma malga de recados administrativos, nove horas diárias de trabalho, privação alimentar, compulsão alimentar, desequilíbrio temperado com perspectivas vãs de sucesso.

Ah a adultez: a mentira, o esvoaçar do síndrome de fraude, espontaneamente substituído pelo conforto de quem cumprimenta o início do fim.

Doem-me os olhos, os lábios que sofrem com os espasmos ansiosos do final de semana e a raiz do cabelo. As marcas do dever enrugam a minha juventude e cá estou eu, caída, mais uma vez levada à esterilidade.

Batem-me à porta imaginária da intuição criaturas a quem recuso repouso. “Estou exausta”, digo-lhes sem mover a boca. Lá fora, turistas empilham bebidas caras e sacos incomodativos. Casais de idosos passeiam de mãos dadas em passeios povoados por lagartos que apreciam o sol.

A aba interior do meu pé esquerdo magoa-me. Continuo. Que é feito de mim?

Ah a adultez, essa palavra, aparentemente, inexistente, mas tão capaz de nos degolar uma noite de cada vez.

13 meses de estórias, 21 anos de ilusão antropológica, uma verdadeira e despreocupante crise de identidade.

Sem aviso, estou derramada sobre esse estrato carcomido pelos inquilinos anteriores de uma cidade que a ninguém dá atenção. O tapete escurecido dos meus anos universitários goza-me. “Quem és tu?”, pergunta-me a lagarta do País das Maravilhas.

Sinto-me Alice. Quando não me senti eu Alice? Sinto-me Alice: perdida, confiante e disposta a experimentar o impossível.

A solidão está-me na massa do sangue. Homens com barbas douradas engolem quantidades copiosas de sol. Arrepio-me. Aspiro a radiação com a certeza de que não tarda muito estarei acompanhada por um qualquer dragão em miniatura.

Ah a adultez: essa máquina incompreendida (incompreensível) que um dia me disseram não ter sequer vocábulo.

13 meses de estórias, 21 anos de ilusão antropológica, cinco semanas de noites que só acabam depois das três da manhã, um romance de Plath, a ondulação assoberbante do mundo e depois? A deriva. A confusão estranha de quem sabe exactamente o que quer, sem saber nada do que deseja o mundo.

“O meu mobiliário é a minha personalidade”, escreve Franzen pelas cordas vocais de Chip. “A minha incerteza a minha carcaça”, respondo-lhe, discernindo com clareza todos os passos que as minhas estimadas sabrinas darão.

Mas afinal que é da adultez? Quando o peso da carne se assume e o corpo é senão ora um receptáculo descartável ora um templo, quando a inteligência é um fio habitual que nos corta a aventura, quando Einaudi nos soa a dieta rotineira…

Mas afinal que é da adultez?

Cortei relações com o mundo, sorvendo-o pelo fluxo dos meus dedos calejados que martelam as notícias do dia. Sorrio. Doem-me os olhos.

Para ouvir: Passagio de Einaudi
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