Literatura feminista: Sufoca-me esta campânula

Publicado sob o pseudónimo Victoria Lucas, em 1963, The bell jar (ou A campânula de vidro, na tradução portuguesa) de Sylvia Plath é uma viagem aterradoramente perspicaz pela raiz sexista da sociedade.

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Recordo com clareza a primeira vez que A campânula de vidro de Sylvia Plath me deixou intrigada.

Sobre o sofá castanho roçado, a silhueta elástica de Kat, protagonista do sucesso da minha adolescência 10 things I hate about you de Gil Junger (1999), devorava a obra de Plath com impressionante convicção.

Kat era, nessa ocasião, o modelo pouco convencional de rebeldia: independente, desligada das obrigações sociais e, declaradamente, feminista; no fundo, tudo o que Esther Greenwood, protagonista e narradora d’ A campânula de vidro, temia ser impossível.

O seu desinteresse pelo esperado agredira, quase 36 anos antes, o bem-estar de Esther, incapaz de se desprender dessa redoma social.

A campânula de vidro é um romance semi-biográfico que narra a aproximação da autora ao precipício, isto é, a sua luta contra a doença mental e o espírito suicida que coloriu a sua vida (e que, derradeiramente, a  finalizou.)

É uma pérola feminista, simples, considerada e desprovida de efeitos estilísticos desnecessários. O livro de Plath é um monumento que, embora tendencialmente poético, se satisfaz com o minimalista.

Discorre sem esforço diante dos olhos preocupados do leitor, num arranjo temperado com o tipo certo de humor negro.

Importante é, no entanto, realçar o peso emocional desta obra. A campânula de vidro é uma prisão maciça que, através da palavras de Plath, chega até nós intacta.

Perdida numa oportunidade única – está a estagiar numa revista de moda nova-iorquina – Esther carrega sobre os ombros a sociedade inteira, sentindo-se obrigada a escolher, definitivamente, o que quer ser: uma mãe, uma editora de sucesso ou uma grande poetisa. Enfim, apenas uma dessas figuras exemplares.

A “mulher” neste romance dos anos 60 aparece como peão uni-facetado, que incisivamente opta pela família ou pela carreira, pela virgindade ou pela vulgaridade absoluta.

À custa da indecisão impossível de Esther, engorda a campânula até à exaustão psicológica e às múltiplas tentativas de suicídio – entenda-se de libertação.

Já enterrada e, no entanto, ainda viva, sempre viva, como se a carne e o mundo fossem grilhões inescapáveis.

A campânula de vidro de Plath não é, por tudo isto, um romance adequado para a beira-mar. Não é leve ou esquecível: é aterrorizador e impactante, sobretudo quando o mundo de Esther se percebe espelhado no nosso próprio universo, mais de 50 anos depois.

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