Alice ou o esquecimento começa agora

Que será de nós, seres repletos de poder e narizes tão altos quão os maiores monumentos da história? O esquecimento, dirá Alice, empregada de limpeza, vulgo apagador primeiro da nossa presença.

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Descapotáveis entusiasmados corriam na avenida. Turistas mal vestidos apressavam o passo, cortando os sôfregos habituais que se deixavam ir ao ritmo sanguíneo da cidade.

Os sapatos de couro e camurça negra cortavam-lhe os dedos frágeis dos pés. Parou. Sobre o sinal de trânsito, o seu corpo perdido na contorção necessária ao posicionamento de um penso rápido era uma chama irresistível.

Do outro lado da passadeira, a barba abundante que uns óculos de sol redondos usavam deitava-lhe olhares sedento.

A metrópole era uma selva deleitada com os seus próprios instintos animais; uma selva de vidro: intocável.

“Respondo a quem hoje?”, perguntou Alice, empunhando a sua preciosa ferramenta de trabalho.

A mulher de caracóis escovados e pele seca olhou a sua vassoura, sorriu rudemente e ignorou a carne que lhe tapava a vista.

Os calcanhares gretados de Alice rodaram sobre si mesmo. A ferida do sonho da ascensão social – vulgo sabrinas – distraia-a dos estilhaços do seu orgulho.

“A ninguém pelos vistos”, sussurou, preparando o aparato de limpeza do escritório. “Então não lhe disseram que deveria deixar as suas coisas no andar de baixo?”, gritou, por fim, a mulher. “As minhas coisas estão no andar de baixo”, corrigiu a empregada.

“Não, estão ali sobre a cadeira do meu editor”, insistiu o exemplar diabólico da incompetência impaciente. “Aquelas não são as minhas coisas.”

Os olhos verde vómito da idosa a gozar os seus quarenta anos irritavam a respiração de Alice.

Encarou-a, tremendo. “Tudo bem, pode ser que se tenha enganado”, concluiu a pedante. Mas aquele casaco preto desbotado não era propriedade de Alice e aquela mulher não era mais que animal de porcelana, falsamente, idolatrado.

“Lave as casas de banho e depois mude de piso”, ordenou, com confiança.

Alice agarrou no balde precário que lhe haviam entregue. O quarto de higiene cheirava a lavanda, sujidade e descuido.

O ritmo popular dos sucessos do seu bairro berravam-lhe nos ouvidos. A escova eliminava os vestígios dos autómatos que a dois metros dali trabalhavam.

A vida é uma colecção arrepiante de traços e simulacros; é um polemos assustador era a proximidade impossível e a aproximação inevitável; é uma memória apagável, arrependível, ultrapassável.

E que resta de nós quando toda a nossa fisicalidade é assim forçada à ausência?

A casa de banho reflectia o sol tímido do início de tarde. A missão de Alice estava completa: jamais pisara naquele sítio qualquer animal vítima da máquina antropológica.

Alice ou a primeira das ferramentas de um ser superior – entenda-se natureza – no ato irreversível do esquecimento.

Para ouvir: Fragment VIII de Library Tapes
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