O imprevisto é uma bomba-relógio

Organize um mês perfeito: limpo, saudável e tão fácil quão delicioso. Preveja-o, saboreie-o, esqueça-o. O imprevisto é a porta inevitável para a Alice exausta em todos nós.

A (1)

Na superfície listrada que me protege, brevemente, os joelhos, assento todas as regras que comandarão o mês ideal.

“Sem Wi-Fi. Sem chocolate. Sem insónias”, vomita o ser utópico que me pressiona as pálpebras.

Junho vai morrendo, rigidamente, domado pelo plano que, rotineiramente, falha. A angústia da sua ressurreição anuncia-se assustadora.

“Já marcaste a consulta?”, verifica a minha irmã, de pele torrada e olhos curiosos. “Não, talvez o desfoque seja só mesmo do cansaço”, informo, recordando o desabafo daqueles dias em que pensara que a cegueira me começara a assolar.

Depois, vêm as noites mal dormidas, o entusiasmo laboral impossível de desligar, a vontade de fazer muito com o pouco tempo que me resta.

Depois, tarda a chegar aquela mágica hora livre do peso do meu corpo, isolada nalgum oásis secreto onde crescem ondas e grãos de areia amarelada.

Depois, crescem os imprevistos e o esforço transforma-se num exercício exaustivo e delicioso de superação.

O sucesso é um vício, já lhe disse, mas é também aditiva essa sensação de exaustão constante no final de um dia que não se consegue desligar.

O imprevisto é uma bomba-relógio: no seio de uma rotina, estrategicamente, delineada, aguarda sorrateiro; explode, destruindo a paz prevista; explode, incitando a felicidade dos lunáticos, que, passo após passo, se encaminham para o seu próprio fim.

De mãos dadas, a satisfação (momentânea) e a profunda tristeza desfilam no meu crânio.

Arrumados os deveres a horas tão pornográficas quão possível, treme o meu cérebro por mais e mais esforços inesperados. No fundo, a voz parva do azul em mim sussurra planos de abstracção.

Eu rio-me, largamente. Abandono a minha profundidade e embalo a mala para outra noite pouco dormida.

Para quando um botão capaz de nos desligar esse desejo louco de fazer mais e mais? Para quando a importação dessas vidas tão limpas e organizadas que até o fim parece mais lento?

“Para nunca, espero”, vou respondendo a mim própria. “Para agora, já”, vai gritando o double bind da minha alma já cansada desse invólucro obeso que é o perfeccionismo.

Para ouvir: Sometimes de Goldmund
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