Ama-me ou até quando humanos?

Ao longe, o rugir mansinho do seu corpo não se fazia ouvir. Lília era, àquela distância, apenas um quadro de perfeita harmonia. Sob a pele queimada de Martim, a circulação fazia-se acelerada, desregulada, inflamada pelo quadro de pacificidade que aquela mulher componha.

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O rebordo verde escuro da janela emoldurava os movimentos lentos e compassados de Lília.

A escova leve deitada nas suas mãos corria cada centímetro da sua nuca com uma languidez sedutora.

O trânsito bulia, animadamente. Bicicletas ferrugentas cortavam filas de automóveis em passeio. Os laços esvoaçantes das senhoras conservadas em descapotáveis coloriam o ar.

A Primavera soprava com doçura as últimas gotas de tristeza.

Sob as solas, gentilmente, usadas dos sapatos de Martim, a calçada estendia-se, irregular.

Numa mão, um cigarro quase gasto; na outra, um volume puído d’ Outro Eu de Greene. Nas costas, o anúncio gélido de um jardim.

Martim parou, incapaz de conciliar o passo acelerado com as linhas histéricas que lhe corriam nas córneas, fazendo-se debruçar sobre o muro precário, que continha o verde.

As páginas voavam, contaminando o odor a tabaco com o profundo aroma da idade: prendeu-as, mas o seguimento estava perdido.

Os olhos do jovem leitor aventuraram-se, por dois momentos, nos prédios imponentes que ocupavam o outro lado da rua.

Janelas ornamentadas cresciam, selvaticamente, no seio de uma avenida de turistas.

Numa das raras aberturas nuas, lá estava ela, Lília, escovando, sofregamente, o que, à primeira vista, pensara ser a juba domada de um belo exemplar de humanidade.

A pele nívea da jovem mulher brilhava. O dia estava claro, Lília deslumbrante e Martim, inexplicavelmente, consumido por aquela miragem.

Oh o poder sair daquele passeio sobrepopulado em direcção ao éden daquele leito primaveril.

Ao fundo, a figura masculina agrediu, violentamente, as suas fantasias.

Era alto, musculado e dono de uns largos anos de existência o homem, cujas mãos violentas agarraram no pulso de Lília.

Martim sentiu a revolta, a dentada ácida da inveja, nas suas próprias veias.

A pele de Lília fez-se substituir pela brilhante estrutura de arame. O homem rodou-lhe o pulso e cortou-lhe a vida.

Frankenstein mantinha o fôlego, Romeu perdia o seu, Eva dormia, silenciosamente, no prado dos insensíveis desejáveis.

Mas o que é a humanidade? E que são estes grilhões que nos mantém neste reino dos produtos mais ou menos precários da máquina antropológica?

Para ouvir: Dolly pour piano à quatre mains de Fauré, Le Sage e Tharaud
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