Somos todos porcos

Ainda antes de escrever o genial 1984 (1949), George Orwell ofereceu ao mundo Animal Farm (O triunfo dos porcos, na tradução portuguesa), uma caricatura inteligente, bem humorada e certeira de um sistema político que ama os pobres, abusando deles.

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A contra-capa d’ O triunfo dos porcos de Orwell anuncia-a como denúncia sarcástica do Estalinismo.

A duas dezenas do início, começo a concordar, vendo a figura do líder comunista espelhada no rosto matreiro do camarada Napoleão, porco-líder da revolução que levaria à expulsão dos humanos da quinta.

As cem páginas que se sucedem engrandecem essa analogia, revelando, pela primeira vez, de forma inteligente o potencial abusivo desse regime utópico.

O triunfo dos porcos não é, contudo, apenas um poderoso instrumento de escrutínio comunista. Nele passeiam-se traços  flagrantes da política dita liberal.

No final, quando o rosto do camarada chefe se confunde com as caras odiosas dos vizinhos humanos, a mensagem não podia ser mais clara.

Em boa verdade, trata-se, antes de mais, de um retrato da aproximação da esquerda ao capitalismo; da primeira noite nos lençóis que deveriam ser proibidos aos iguais; do primeiro copo de cerveja, num país governado pela proibição do álcool.

Sim, está em causa a inevitabilidade da corrupção, mas melhor não é o retrato desses mesmos vizinhos.

Assim, na esperança de encontrar demonizado esse “grande outro vermelho”, encontramos o nosso “grande eu” desdenhado: ganancioso, sem escrúpulos e, perigosamente, adepto desse jogo de abusos.

Orwell é, mais uma vez, extraordinariamente, perspicaz, antevendo todo o desenrolar do regime soviético a par dessa ilustração das elites políticas do ocidente.

Relevante, bem humorada e, tremendamente, certeira, esta é a obra certa para consolidar a sua confiança na falibilidade de todo e qualquer sistema.

Se ainda a essa conclusão desapaixonada não chegou, leia-a enquanto História surpreendente da União Soviética.

[Acima de tudo, continuo sem perceber porque não é este um livro obrigatório do plano curricular de História… Quer maneira mais fascinante de aprender?]

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