A limonada possível

Perdida nos quatro cantos metálicos daquela cabine telefónica, Simone faz a máquina engolir os seus últimos cêntimos. O fio treme, a conversa esvai-se, mas ao acaso, que não dorme, nunca escapa o bálsamo sensual necessário à dor de estar perdida.

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O chão está coberto de beatas, o ar daquele resíduo mole que a chuva mal anunciada e um serão de cigarros tendem a provocar.

“Estou? Onde estiveste? Ando a tentar ligar-te há mais de uma hora”, grita, quase histérica, a mulher.

O ruído do outro lado da linha é pálido. Nada se ouve. A conexão dissipa-se ainda antes de Simone obter uma resposta.

Enfia a moeda usada na ranhura e insiste.

O silêncio assombra a superfície morna da atmosfera. A noite vence-a. Simone fecha a pequena mala de couro que traz a tiracolo e encaminha os seus pés em segunda mão até casa.

A luz mortiça do apartamento corta-lhe a respiração. Livros multiplicam-se sem ordem pelo pouco espaço que ainda falta ocupar.

Simone serve-se de um cigarro, abre a janela, que range, e deixa-se ir, deixa ir o dia, o mundo e o imenso peso que o falhanço faz pender sobre os seus ombros.

“Dia mau?”, pergunta uma voz profunda.

O quadrado de verde que se ergue diante dos seus olhos está vazio.

Simone roda o pescoço, invertendo a posição natural do seu crânio. No topo, um andar que a incomoda e agora o olhar azulado de uma amarra improvável.

“Decidiu fechar a pseudo-discoteca por hoje?”, atira a mulher.

Os anos fugidos à universidade, a tinta seca na sua pele e a contabilidade criativa que lhe tem roído o estômago maçam o seu sentido de humor e oportunidade.

“Estou em pausa”, ri o vizinho. “Parece estar a precisar de um bom copo, porque não vem cá acima?”, propõe.

O prédio é o esqueleto da solidão urbana. Nele, vive a família desconexa de fantasmas que ignoram os sinais evidentes da sua materialidade.

Na cidade, somos todos espectros que negligenciam a corporeidade e fingem a completa transparência.

O elevador bule a subida de um andar.

Simone rompe essa acordo tácito, porque o poder inebriante do vinho é-lhe, neste momento, mais relevante que as regras estúpidas da boa e desinteressada convivência metropolitana.

“Onde tem o vinho?”, cospe, mal a grossa tábua de metal destapa a privacidade do homem.

“Olá, sou o Henrique. Prazer em, finalmente, conhecê-la”.

“Onde tem o vinho?”, repete, dirigindo-se à bancada da cozinha do pequeno estúdio.

O liquido é quase espesso, rico e aromatizado: acalma-lhe os nervos.

“És uma grande dor de cabeça, sabes? Já não posso com a tua música todo o raio do dia!”, informa, sufocando o copo a transbordar com álcool.

“O teu cabelo é maravilhoso”.

Henrique roça os trinta anos; veste uns jeans rasgados e um pólo azul pastel maravilhoso. O seu sorriso esconde a malícia de quem nunca viveu num lugar normal, longe da anomia urbana.

“E se esquecêssemos a música por hoje?”, pergunta Simone, deixando os seus pés vencerem o intervalo que os separa.

A textura dos lábios de Henrique excita uma aventura que, sem conhecer as regras espectrais da vivência costumeira, se condena à singularidade.

Os braços de Simone rodeiam o tronco musculado daquele homem não tão estranho.

Afinal, quem era o humano que a esperava do outro lado da cabine telefónica?

Não sabe. Não se recorda. A barba, asperamente, sensual de Henrique não a deixa invocar a memória.

O erro parece esgotar-se, desvanecer-se.

Ao longe, o futuro adivinha-se pesado, insuportável… Por agora, o calor entusiasmante daquele corpo é mais do que capaz de a eliminar do mundo.

Ao futuro o que é do futuro. Ao presente, a febre do encontro.

Para ver: The difficult months por Lucy Moon
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