O extraordinário mundo estranho de Murakami

Recorde a história mais estrambólica que já teve o prazer de devorar. Multiplique-a por dez. No seu crânio, repousa agora o poder avassalador de Haruki Murakami. O impiedoso país das maravilhas e o fim do mundo (2013) é um monumento [e, francamente, um dos meus livros favoritos de sempre].

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“És curiosa. A tua figura a ler é curiosa”, comenta uma amiga. “Porquê?”, pestanejo, deixando por breves momentos o País das Maravilhas. “Parece que estás mergulhada na história, completamente isolada do que te rodeia”, explica.

A natureza irreal da imaginação confunde-me. Afinal, o que separa o produzido pela carne do produzido pela mente? 

O impiedoso país das maravilhas e o fim do mundo de Murakami é a brilhante narrativização dessa dicotomia problemática.

O protagonista é trivial – um informático num mundo definido, ironicamente, pela guerra da informação – e, ainda, assim, profundamente, apaixonante, não fosse o seu crânio um vale repleto de unicórnios, sonhos e sombras.

Atenção: não tente encontrar qualquer fio lógico neste aglomerado de elementos fascinantes. Há muito que descobri que Murakami não é uma história, é uma experiência: uma longa, resiliente e arrasadora experiência.

Se Kafka à beira mar (2006) me cortara a respiração – e, sinceramente, o tempo livre – O impedioso país das maravilhas condenou-me à batalha interna que, recentemente, apaziguara.

O dilema da ontologia e a potência de realidade do imaginável sempre me assombraram. [Recorde: Ecrãlismo ou o peso da alma]

A obra filosófica de Carroll, Alice no País da Maravilhas (1865), no mesmo espaço de tempo, tem ocupado o lugar cimeiro dos meus livros predilectos.

Portanto, a história desconexa de um homem que se vê remetido à imortalidade da sua consciência, depois de atravessar a rede de esgotos sinistros da cidade, ser assaltado e produzir música a partir de um crânio de unicórnio não poderia ser mais susceptível de conseguir o meu amor.

Murakami é um perplexo labirinto.

A sua escrita é simples, ainda que transpire frases tão extraordinárias que se transformam em lemas de vida.

A sua narrativa é inesperada, ainda que se agarre, magistralmente, aos actos pequenos do dia a dia.

As personagens do autor japonês seduzem-nos de tal modo que, ao lado dessas criaturas que me ocupam a mente, lá se sentam elas, mesmo depois da última página.

O impiedoso país das maravilhas e o fim do mundo é, por tudo isto, uma pérola, seriamente, dedicada à discussão do problema da carne.

Pelo caminho, há, ainda, tempo para a caricaturização da podridão do sistema – de qualquer sistema – e da corrupção inerente ao jogo da informação, ao qual hoje tamanha devoção prestamos.

O romance vencedor do Prémio Tanizaki é um dos mais inteligentes que já tive o prazer de ler; Haruki Murakami é um dos autores menos comuns que já tive a sorte de encontrar nas prateleiras da minha biblioteca favorita.

Resta-me aguardar com entusiasmo a conquista de um Prémio Nobel da Literatura… e, convenhamos, que já começa a tardar!

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