Porque não te calas? O império da opinião

Germinam-nos opiniões como coelhadas não tão agradáveis e, sobretudo, insensíveis ao choque. Esta semana, o silêncio, o outro e o erro como antídotos dessa asfixia opinante!

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Nascemos no império da opinião.

Nas pontas emborrachadas dos meus dedos, saltam comentadores presos às ondas televisivas como quem, umbilicalmente, se agarra à vida.

Na fuga do meu olhar, vomitam os cibernautas vozes tão imparáveis como os desígnios frio do planeta que nos sustenta.

Nascemos neste terramoto. Assolados pela feliz ilusão da liberdade. Motivados pela extraordinária dádiva do espaço. Deslumbrados pela inovadora natureza virtual do anonimato.

Trocámos de máscaras com Defoe, dizendo-o um hipócrita mercenário do alto da nossa legítima volatilidade.

Na cavidade cardíaca, batem-me convicções tão fortes que me magoam. Vomito-as, semanalmente, há mais anos do que aqueles que deveriam ser escutados.

A opinião, entenda-se, é um direito precioso. Mas quando nos calamos? Quando perceberemos nós o silêncio – ainda que efémero – como presente, igualmente, maravilhoso?

Derramo, sim, há mais de 468 semanas o que me vai no espírito, neste espaço imortal. [Provavelmente, contam-se mesmo mais do que 468 opiniões, tão prolífero foi o período de certezas pré-adolescente.]

Nos intervalos, calo-me com vontade, arrepiada face ao barulho agudo da minha voz.

A [minha] opinião cansa-me e a sua?

Nascemos no império da opinião. Pior, nascemos no reinado da arrogância opinante. 

Não é que, ainda, caiba o debate. Hoje, já só se adapta a arena cínica, inflexível.

Estamos deslumbrados pelo nosso próprio eco, inebriados com o nosso próprio brilho.

O que desejo? Um desfecho tão decisivo como o de Narciso!

As nossas veias gritam por ele, por esse momento em que, afogados, perceberemos a temperatura não morna da realidade extrínseca à nossa própria bolha.

Porque não te calas? Porque não te deixam calar, tal é o motor do regime instalado. 

Espera, escuta, por favor, subverte a necessidade da sonoridade, transforma-a não na transpiração absurda da superfície, mas na abertura inteligente à dúvida permeável ao confronto possível.

Não aniquilemos o império! Gozemos dele como cidadãos incontroláveis, interdependentes, silenciosos na ante-câmara dos nossos gritos.

Desfrutemos desse baile de máscaras atmosférico como quem se abre ao erro, mas admite a falibilidade não arrogante da sua própria língua.

Digo isto eu, opinando.

Para ouvir: Mountain sound de Of monsters and men
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