Truth: depois de Spotlight, [outra] desgraça

Cate Blanchett tenta brilhar em Truth (Verdade, na tradução portuguesa) de James Vanderbilt, um pretenso ensaio cinematográfico sobre a conspiração, o jornalismo e a ditadura do poder.

Estão, certamente, Alan J. Pakula, Dustin Hoffman, Robert Redford e todos aqueles que, um dia, ousaram retratar com o mínimo de espírito o jornalismo no grande ecrã a agonizar face ao rosto inteligente de Cate Blanchett.

Truth de James Vanderbilt é a mais recente tentativa numa longa dinastia de esforços de efabulação desta preciosa profissão.

Depois do Óscar de Sptolight de Tom McCarthy (2015) esperar-se-ia um intervalo de desintoxicação, mas Vanderbilt insiste em avançar, erguendo a bandeira da conspiração e a glória da investigação jornalística.

O período de nojo? Deveria ter sido mantido.

Truth é precipitado.

Funciona sobre a imensidão acostumada de Blanchett, que desta vez veste o papel de produtora de um dos programas televisivos mais ilustres de sempre (60 minutes), desperdiçando-se, de resto, em silhuetas secundárias, profundamente, mal aproveitadas.

A memória da reportagem sobre a participação militar de George W. Bush na Guerra do Vietname, que viria a inflamar um escândalo no seio da cadeia norte-americana CBS, enche duas horas imagética e narrativamente pobres.

A sala rechonchuda podia até mesmo orgulhar-se dessas gorduras não tão habituais nos espaços escuros de hoje, mas o grito impactante do mundo exterior – leia-se telemóveis – não tardou a tornar frequente a sua presença.

Distraída confessa, assumo-me eu, estudante de jornalismo, apaixonada por cinema e outrora entusiasmada por mais uma fita deste género.

Queria que Truth fosse o meu Spotlight; que Blanchett fosse o Ruffallo dos que não concordam com a premiação da Academia.

No final, nem um nem outro me arrebataram. Truth, mais do Spotlight, insultou mesmo a minha paciência.

Ainda presa pelo fio da ética e deontologia da profissão que o enredo quer resgatar, simbolicamente, do escândalo em volta da volubilidade da acção jornalística, senti, gradualmente, a morte da minha atenção.

Planos pobres, cores, pornograficamente, amareladas, cenários sem surpresas e acompanhamentos musicais dispensáveis compõem uma fita que pouco tem para lhe oferecer.

Mary Mapes (Cate Blanchett) viveu, não me interpretam erradamente, uma das histórias mais interessantes que já vi levadas, nesta área, ao cinema.

Os ingredientes mágicos são, contudo, insuficientes face à incompetência do próprio cozinheiro.

Com desejo de uma figura feminina forte no jornalismo cinematografado? Recorra a His Gil Friday de Howard Hawks (1940), pois até o tecido fantástico dessa época ultrapassa o desconsolo artístico e narrativo do trabalho de Vanderbilt.

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