Exaustão ou o fim na era da imortalidade

A caneta de plástico barato bulia nas suas mãos. A linha grossa de tinta inundava a textura bárbara do envelope. Lá dentro, seguia o pedido de um fim a uma fábrica que só permitia a infinitude.

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O nascer do sol do quinto andar do prédio de Marlene era assustador.

Ogivas roxas e laranjas preenchiam o horizonte mais ou menos interrompido.

Lisboa gemia a exaustão de mais uma noite de loucos, vomitando carros parcos e mal acostumados à fluidez.

Os olhos de Marlene lacrimejavam. A mulher a rondar os 300 anos, ainda uma jovem no vocabulário do seu próprio universo, agarrou o frasco de lubrificante para solucionar o que só a morte, essa possibilidade banida, poderia consertar.

Outro dia. Outra reparação”, suspirou.

Os seus ossos rangiam. As próteses luzidias gritavam por atenção. Meia lata de óleo depois e uma centena de afinações informática volvidas, Marlene estava pronta para mais 24 horas desperdiçadas no seu tão precioso emprego.

Sobre a cómoda encardida, o simulacro do corpo outrora físico dos seus pais ria-se com vontade, troçando da estupidez em que se tinha transformado a sua existência; perdão, da estupidez em que se tinha transformado a existência.

Do lado esquerdo, o imenso certificado de imortalidade tremia ao ritmo de uma brisa sorrateira.

Marlene lançou-lhe um ar ressentido, surripiando o envelope onde fechara o pedido por um fim.

Mais tarde, haveria de o colocar nos correios para que a novidade de uma folha de papel atenuasse a novidade de um eterno que deseje a morte.

“Estamos felizes por anunciar que o seu pedido foi aceite”, murmuraria duas semanas depois, lendo em voz baixa o resultado de um arriscado golpe.

Empacotou as malas, levando consigo pouco mais do que três camisolas e uma escova de dentes.

Passaria quatro dias de terminação, isto é, de remoção da infalibilidade para logo se juntar à natureza flutuante dos extintos.

Os anos pesavam-lhe. A manutenção aborrecia-a. A solidão havia-se transformado numa besta sedenta, capaz de lhe sugar mais e mais o espírito.

Quando sentiu a última pulsação protésica do seu coração, ouviu sem pesar a memória desses pais.

O corpo falhava-lhe e a fraqueza sabia-lhe tão bem.

Sorriu, na esperança de se ver partida e, pouco depois, enterrada num qualquer quintal da fundação.

“O espírito já se foi, Rui”, escutou ao longe. O limbo parecia interminável. Para quando a escuridão calada?

“Óptimo. Os sinais vitais mantém-se estáveis?”, perguntou uma voz grossa.

“Sim, perfeitamente saudáveis. Daqui a três dias o soro deve concluir o seu efeito. Devemos conseguir manipular a sua consciência sem problema”, respondeu o fio de voz feminina.

Marlene, gritava, ansiando o descanso da sua própria carne. O vácuo da inexistência era, porém, irresistível.

O fim é um dom da corpo, uma impossibilidade da consciência.

Mas o que fazer a um abraço vazio? Enchê-lo de uma carne imortal que, pela primeira vez, consegue furtar-se ao domínio absurdo de uma alma.

A imortalidade, atenção, é o primeiro passo para a fácil e mecânica instrumentalização dos nossos esqueletos.

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