Quem semeia conflitos colhe refugiados

Ou os novos europeus.

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Equilibro sobre os joelhos meia dezena de folhas em branco, o dossier obeso da cadeira e um par de esferográficas mal tratadas pela ansiedade académica.

Sem jeito, faço entornar sobre a alvura desse receptáculo físico as histórias complicadas desses dias malfadados em que, de arma e sorriso em punho, lá fomos nós à conquista do Médio Oriente como quem vai a Cascais apanhar um Solinho e, de caminho, compra um bom chapéu para os dias de Verão.

Chegada a Israel, à Síria, ao Afeganistão, num percurso demorado que nos últimos dois meses tenho traçado pela Política Internacional, deparo-me com o vestígio indelével da nossa ganância.

Sobre a secretária, os meus olhos conquistam linhas que, entre uma e outra página, me fazem retirar com velocidade o telemóvel, apanhar o momento e partilhar uma origem a que parecemos fechar os olhos.

De onde vêm os refugiados?“, pergunta-me uma amiga, aparentemente, desligada do real pela conexão exclusiva ao discurso dominante.

Dessas regiões-problema a que nós, um dia, graciosamente, prestámos opinião, para logo depois nos afirmarmos como grandes protectores contra uma radicalização que, pre-existente, soubemos inflamar“, respondo quase em fúria.

O meu conhecimento sobre estes “novos europeus”, como lhes chama o The New York Times, esta semana, é magro: macérrimo, anorético mesmo.

Tenho na sacola umas dezenas de artigos, alguns dados estatísticos e a História completa da guerra fria.

O que não tenho é a felicidade de ter encontrado nos primeiros a impressão dos segundos; de lá ter descoberto a admissão sincera de que, à custa de uma estratégia, externamente, interessante, andamos a jogar xadrez onde não devíamos.

Depois, e só depois, haveríamos de os perceber não como “novos europeus”, mas como “forçados a europeus” – entenda-se ocidentais – pela nossa vontade de dominar o mundo.

Depois, e só depois, haveríamos de cheirar a ferrugem sanguínea nas nossas mãos ainda antes de nos desatarmos a compilar desculpas para que, lá longe, se mantenham as nossas vítimas.

O humanismo é uma guerra provocada pela atractividade do poder anónimo. 

As facas que hoje nos ferem – a inundação insuportável e a insegurança – não são frutos de geração espontânea ou divina, entendamos.

Talvez, assim, possamos admitir que o bonito chapéu que nos cobre o rosto custou bem mais do que uma viagem de comboio.

Por agora, os danos colaterais são entendidos como resultado de um jogo distante, estrangeiro e afastado da nossa própria respiração.

A História, um dia, dirá o contrário!

Mais: Concerto de beneficência – Apoio aos refugiados (12 de Abril, Cinema São Jorge)
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