The lady in the van: a doçura faz pensar

Maggie Smith e Alex Jennings protagonizam The lady in the van (A senhora da furgoneta, na tradução portuguesa) de Nicholas Hytner, um imenso palácio de significados, piadas e dores que a ninguém deixa indiferente.

Coloquemos Miss Shepherd (Maggie Smith) de lado.

Sim, a sua actuação é uma conquista multifacetada que, sob uma fragilidade enternecedora, esconde dilemas mais sérios que inflamam a política, a religião e a degradação sócio-familiar.

Sim, Maggie Smith é um daqueles rostos que na simples obstinação irónica encontra as tais risadinhas saborosas que fazem do cinema uma deliciosa sobremesa ao fim da noite.

Lady in the van de Nicholas Hytner ousa, contudo, ultrapassá-la.

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Talvez seja Shepherd a dar o nome à fita, mas são os olhos de Alan Bennett – tanto enquanto protagonista encarnado pelo peculiar Alex Jennings como enquanto autor efectivo deste guião – as verdadeiras pérolas a ter em conta.

O par Smith-Bennett (nas suas múltiplas formas) transforma, na verdade, este filme num convite, sorrateiramente, profundo.

“Um autor não escreve sobre si, encontra-se na sua escrita”, reflecte uma das silhuetas de Bennett.

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Mary Shepherd vive perdida em Camden Town, afogada em recordações e remorsos; em constante fuga ao seu passado.

Alan Bennett acolhe a carrinha excêntrica da idosa num acto de piedade disfarçada, iniciando, assim, uma viajem não propositada à história curiosa da eterna migrante.

A personagem de Maggie Smith é tocante, confessemos, atractiva até no seu humor perturbador fundado na vulnerabilidade dos seus olhos.

É, porém, o desdobramento literal de Alan Bennett e todos os elementos brechtianos de Lady in the van que arrancam esta fita do simples entretenimento moralizador.

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A luta de Bennett consigo mesmo, mastigando a sua mediocridade literária, a sua solidão e inexperiência, uma mãe demasiado inglesa e uma homossexualidade tímida, é deveras interessante.

Estamos mergulhados na carrinha amarelo-Sol de Mary, escutando a crítica subtil à hipocrisia religiosa e social, com todo o prazer de quem encontra num desses parentes idosos uma relíquia deslumbrante.

A sala atolada de livros e reservas do escritor diz-nos, no entanto, muito mais: fala-nos do Homem e da sua relação improvável com o mundo; conversa sobre a eterna comparação que nos ata os membros e as capacidades.

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Juntos, Mary e Alan são figuras não tão caricaturizadas dos nossos dias: a solidão idosa, é claro, mas sobretudo o remorso e o infinito purgatório, o medo do próximo e a fragilidade passeiam nesta hora e meia com uma facilidade impressionante.

Camben é um lugar rico em trivialidades enaltecidas pela bela banda sonora que tempera The lady in the van

Chopin ilumina com mestria os ângulos e as cores de um quotidiano descarado, problemático e insolúvel.

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Acresce um ramalhete de momentos de cinematografia superior que, coroados pela irrupção final do fora de campo no próprio campo, comprovam a qualidade deste filme.

The Lady in the van não é irreverente; é matreiro: convida-nos a chorar a velhice abandonada e acaba por nos oferecer uma excentricidade comprovada que mais diz sobre nós do que sobre Mary.

Para ouvir: Piano Concert No. 1 in E Minor, Op. 11 II. Romanz de George Fenton
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