Intocabilidade ou como reciclar memórias

Se soubessem a genuína natureza da paz eterna, jamais a arriscariam. A tarde esfria nesse local último dos corpos humanos. Ao longe, Raquel mastiga a partida do seu pai, percebendo a tempestade que, ali tão dentro, se levanta.

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A lagarta bule sob a estrutura de betão encerrada no coração da cidade.

No cais, grupos parcos de passageiros aguardam o transporte com os olhos colados às suas brilhantes palmas das mãos.

As solas usadas dos sapatos de Simão tremem. As pernas musculadas insistem naquela mortífera direcção a despeito do seu próprio fôlego. A linha amarela ronrona sob a trajectória.

O degrau é imenso, a queda previsível, o beijo final monstruoso.

“Caros passageiros, devido a perturbações na linha vermelha…”, informa, amigavelmente, o Deus do metropolitano, imediatamente, omnisciente.

“Como foi o teu dia?”, grita o dispositivo de luz azuladas deixado na beira do precipício.

“Nada bom”, pensará, mais tarde, a memória de um espírito sem corpo.

As pás generosas de solo húmido cobrir-lhe-ão, gradualmente, o rosto desfeito. No leito do último furo da sua existência, lágrimas desesperadas cairão.

Ali vai Raquel, filha de Simão e de uma outra vaca humana que a arrancou por capricho do alcance do seu toque.

Aqui Helena, mãe da vítima, carpindo as dores de um parto em vão. Quem a recordará? Quem assegurará a sua eternidade?

O vestido negro de Raquel engole o vento. As gotas pálidas de saudade inundem a superfície alva do seu rosto.

Doem-lhe os braços, o vazio deixado neles. O que fazer a um abraço esvaziado?

Simone encarrega-se de a esconder no veículo da família. “Lamento, Helena”, diz, por fim, à outrora responsável pela exportação do seu amado.

“Será que, agora, depois disto, podes levar a Raquel lá a casa?”, pergunta ansiosa a idosa. “Lamento, Helena”, repete a primeira.

O carro está húmido. Cheira a pastilhas elásticas e rosas. A textura barata do banco roça a calmaria aparente de Raquel.

“Mãe, que faremos agora?”, atira, fitando a mulher que, entretanto, ocupou o lugar de condutor.

“O mesmo de sempre. Onde queres ir almoçar?”.

Raquel aspira-a, perplexa.

“Mãe, nunca mais o verei”.

“Oh querida, terás sempre a memória dos dias felizes”, remata o casaco marinho que devora quilómetros como quem come pipocas num filme de terror.

“Aquelas a que me privaste?”, cospe Raquel, sentindo a carne inflamar-se.

Carne; corporeidade; fisicalidade.

“Mãe, a morte é um estado de espírito?”.

“Que disparate. Onde queres almoçar?”, insiste.

“Na consciência do meu pai, mãe”. “Nesse paraíso da eternidade…”, continua, sussurrando à sua mente.

O círculo dos seus braços deixados ao vácuo esmaga a sua respiração.

As memórias giram, incessantemente, no eco continuado do seu crânio.

Aí, Simão mantém-se um poste de carne e afectos abraçável (ainda que apenas uma vez por semana).

“A consciência morre com o corpo, Raquel. Deixa-te de disparates. Onde queres almoçar?”, questiona a progenitora.

“Na consciência do meu pai”, repete, inalando a certeza de que a eternidade é um mito doloroso.

Carne; corporeidade: fisicalidade; tudo aquilo que agora lhe falta e que jamais voltará a anestesiar essa relação difícil da realidade com o real.

Ainda que nesse mundo não palpável o comboio seja inútil, é a força efectiva desse animal que a preocupa.

Afinal, a imortalidade é um legado, mas um legado que nos obriga ao choro e ao choque constante com a ausência da concretude tocável.

“Na consciência do meu pai”, insiste, olhando o bater ligeiro das asas dos corvos plantados no chão físico deste primeiro mundo.

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