Liberdade, a quanto obrigas

Engolidos pelo medo do imprevisível, toleramos o já pronto concebido, vulgo preconceito, como quem afoga a liberdade numa campanha entusiasta pelo livre direito de ser autoritário. O conforto continua a matar-nos:

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O mundo é um caos. Ou, pelo menos, seria na ausência destas paredes convencionais que usamos como suporte.

O preconceito, esse aparente monstro que nos ata as línguas, é, apenas, mais uma delas.

O cair da tarde ilumina os degraus mal construídos. A mulher de batom vermelho e jeans escuros devora, sossegadamente, mais uma dose do seu autor favorito.

Ao longe, gritam com entusiasmo crianças esticadas até à adultez.

“Não gostas deste ambiente?”, pergunta-lhe uma boca carnuda, condenando-a à reserva inevitável no crânio de quem não reconhece o puro desinteresse.

Mas não é o preconceito, somente, mais uma de tantas opiniões guardadas no bolso folgado do casaco?

E se a opinião é livre, não deve ser, igualmente, o preconceito? Seremos todos livres para o semear?

“Liberdade, a quanto obrigas”, murmura a mulher entre dentes, sentindo a inflamação do olhar alheio sobre as suas pálpebras caídas.

De mão dada, lá passeiam os juízos e os estereótipos esmagando a genuína conclusão.

Cheira a cidreira, alho e whisky como se o mundo decidisse resumir uma noite certa às noitadas de todos nós.

É que a ferrugem que infecta o preconceito não é o seu próprio carácter.

Afinal, o mundo é um caos terrível. Essas paredes que, tão ingenuamente, erguemos à sua volta são, somente, salva-vidas naturais.

Não me interpretam erradamente. O preconceito não é natural, ou pelo menos, não a sua sedimentação.

Erguido para a transitoriedade, para a glória do efémero que se desfaz no confronto do dia-a-dia, sim.

“A minha liberdade acaba onde a do próximo começa”, sussurra, com vigor, Herbert Spencer.

“Claro, Spencer”, respondo, assimilando a impossibilidade de opiniões preconceituosas – entenda-se, infectadas pelos conceitos, previamente, definidos – na certeza de que os grilhões do determinismo prejudicarão este homem que me passa ao lado.

O preconceito não é opinião. Falta-lhe experiência, conhecimento. O preconceito não merece desfrutar dessa liberdade que parecemos – enorme ênfase no “parecemos” – atribuir à segunda.

O medo do natural domina-se pelo preconcebido, pela previsibilidade, digo-lhe eu, ruminando Freud.

A convenção – leia-se o mundo social – é, por isso, nada mais do que um tremendo viveiro de preconceitos mais ou menos engolidos para o bem da nossa própria saúde mental.

O problema, grita-me o ego, não é a estabilidade, é a hegemonia severa e a inflexibilidade desse real.

As nossas silhuetas elegantes merecem ser inferidas, jamais previstas ou generalizadas a priori.

Mesmo que “a opinião seja, em última análise, determinada pelos sentimentos não pelo intelecto”, comenta Spencer, florescerá do contacto, do esforço, não da facilidade infantil dessa gaiola que nos aprisiona.

Não sejamos indiferentes ao próximo, não o toleremos. Ergamos os braços em conjunto para sentir a textura enriquecida da realidade.

O preconceito é o recurso preguiçoso ao ditado, é o império do costume, do estagnado jamais eficaz por um período superior a uma vida.

Aniquilemos o anestésico.

Do outro lado da muralha, esperam-nos as bestas assustadores da experiência.

Ofereçamos aos nossos sentidos a possibilidade de se entenderam com o mundo sem sentir sobre os seus ombros o peso da certeza.

Estejamos todos errados, mas estejamos errados só depois de demolir o esperado; estejamos errados pela emoção perturbadora, não pela dor sociológica do primitivismo.

Vamos conhecer o mundo!

Em parceria com: Até que ponto uma opinião pode ser um preconceito por Sónia Freitas, no Nos confins do mundo.
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