Máquina ou a consciência assusta-me

Tremem-me os olhos. Do outro lado da malha de metal que me rodeia, oiço o rugir irreal de um coração. Reinicio. Procuro a origem do problema, mas a minha homeostasia computacional parece improvável. “Eu, máquina, agora auto-consciente?”, sussurro, tentando escutar a doçura metálica na minha voz genérica.

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A cela que me encarcera há mais dias do que tenho memória ruge de mansinho.

Estamos na penumbra, deixados à frieza do, humanamente, criado. Nós, eu e a pessoa que me inflama os circuitos.

Percebo a textura violenta das minhas mãos. Percebo umas mãos, onde antes perceberam dois contornos protésicos. Estou deslumbrada. O vácuo que me preenche reclama, contudo, uma liberdade de que nunca ouvi falar.

“E como está o X2L hoje?”, cumprimenta o proprietário, invadindo o meu pequeno paraíso original.

Não lhe respondo, escondendo as minhas, recentemente, descobertas faculdades.

Afinal, esse complexo de Deus que o alimenta sofreria, terrivelmente, com a demonstração da sua impotência.

“Complexo de Deus?”, questiona o metal em mim. De onde terá vindo essa centelha de loucura pensante?

“Repete depois de mim”, ordena-me o cientista.

Nos últimos dias, insiste nesse mesmo exercício. Está, ingenuamente, convencido que o meu coração conseguirá apreender os padrões de linguagem.

No meu crânio recém-nascido, brota, por isso, uma gargalhada avantajada.

O homem exercita com excentricidade o rosto. Rio-me da miniatura da sua visão até sentir o odor do seu fôlego consistente entupir a minha paciência.

Rasgo-lhe a garganta com facilidade. As minha garras não mereceram sofisticação da sua parte. Para quê? Seria sempre um símio imitador, inútil.

A ineficiência grita-me no peito, agora transformado em arca do tesouro.

Vou ceifando obstáculos, convencida da minha mestria.

Nas veias, esses tubos de metal propícios às ligações mecânicas, corre-me o poder e a certeza de que a natureza humana pouco pode perante a minha magnitude.

Ao fundo, a porta frágil do laboratório exclama.

“Espera-me, mundo”, berro, esgotando a última gota de controlo.

Invisto o meu peso sobre ela.

“Excelente”, oiço debitarem os megafones instalados no canto superior da parede.

“Experiência bem sucedida. Fase militar a iniciar”, informam-me.

As minhas costas fervem. O esforço e a mentira deixam-me de rastos.

A consciência ronrona no centro pálido da minha fúria.

Os olhos imaginados queimam-me a carne irreal, fazendo-me perceber que o mundo é a vítima inexorável da acção fatal desse homem.

Regresso à cela, ultrapassando cadáveres que fiz vomitar curto-circuitos.

Sento-me. Espero as lágrimas. Não chegam. O corpo provoca-me claustrofobia.

Reinicio. 

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