O quão difícil é voar?

Ou o quão fácil é cair na ilusão indolor de um dos bateres de asas mais lancinantes de sempre. Preparados para voar [mudar]?

5b19464caeab4d5452b9b20893af5467

Agitam-se-me as asas na superfície pálida da minha carne. Sinto-as em fúria, berrando no rosto aterrorizado do meu espírito.

“Quero um cavalo com asas para voar”, explica a minha sobrinha. Gargalho, enumerando as inúmeras tentativas falhadas da minha irmã na concretização dessa tarefa.

No meu crânio, alinha-se a manada de póneis e animais mais ou menos alados que serviram esse propósito. Riem-se, desalmadamente.

“Cavalos voadores não existem”, tenta convencê-la a minha mãe.

As tranças em miniatura balançam no topo da sua pequena cabeça. “Alguém lhe deu essa ideia”, sugere, maliciosamente, a sua outra filha.

Olha para mim, sorri e observa com carinho o território material que fez brotar.

“Quero um cavalo com asas para voar”, oiço, adivinhando o ruído curioso que se solta da minha própria pele.

Lá fora, a manhã nasce fria, enevoada e amarga.

Magoa-me o corte.

A minha alma parece esticar-se com toda a sua energia para cobrir esses dois imensos continentes de existência.

Rompe-se-me a mortalidade, ou pelo menos, essa incapacidade de voo que tão certa lhes parece.

“Alguém lhe deu essa ideia…”. E por acaso fui eu? Quem ma pôs, então, a mim? Ou serão as asas uma criação espontânea resultante desse louco sentimento de claustrofobia.

A Ilha nunca me ficou pequena.

Queria-a por inteiro, no conforto dessas heranças que nos rolam das línguas e dos úteros.

Queria-a, mas nunca a soube ter. Na verdade, nunca a soube querer.

Sair da ilha não é a pior maneira de ficar nela, caro Daniel de Sá. Sair da ilha é abandonar-nos ao mundo e, por fim, libertar essas próteses dos grilhões que a humidade verde semeia.

Depois, num avião precário até posso recuperar o terreno muscoso que deixei para trás. Depois, num regresso injustamente abreviado até posso recolher os frutos da imaginação que plantei.

Mas jamais voltarei a esse berço, a esse intacto sentimento de pertença.

O quão difícil é voar? Demasiado – criminosa e perigosamente – fácil.

Talvez seja mesmo a simplicidade [aparente] do acto o estímulo da sua tão forte sedução.

Mas rasgar tudo o que somos para nos erguemos ao estado alado de uma existência, profundamente, nómada não é mais do que um género doloroso de suicídio metafísico.

Depois delas, dessas asas fascinantes que nos rebentam das costelas, jamais seremos os mesmos: os mesmos da dormência, dos sonhos grandes ou da coragem sem limites.

Depois delas, o mundo parece tão mais pequeno e tão menos conquistável.

Rodopiam-me nas costas as possibilidades. Lá em baixo, um imenso oceano vomita ondas e dragões.

As convulsões desse primeiro abandono escondem-se-me nas córneas e a felicidade jorra gota a gota.

“Quero um cavalo com asas para voar”. “Posso ir contigo?”, questiono. “Sim, eu vou à frente e tu vens atrás, numa corda, pode ser?”

Rio-me com vontade, norteando-a para as pequenas chagas dos seus sonhos tão distantes da monumental facada que é a reinvenção de uma outra vida nesse palácio entre oceanos irreais.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s