Um mês de estórias [e favoritos]: Março

Março surpreendeu-me; fez-me cumprir metas, levou-me à rua, à arte e à exaustão; não deixou impune qualquer minuto; quebrou horários, instaurou rotinas e, por fim, brindou-me com alguns dias da familiar humidade insular. Eis agora o colorido desfile dos favoritos de um mês como há muito não se via!

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Ato os cordões ao sacrifício matinal, repousando o rosto demasiado, mas necessariamente, perto do pequeno aquecedor do quarto.

O alarme grita as sete da manhã. Engulo meia banana lubrificada pela quantidade copiosa de água com a qual decido acordar, calço as luvas finas e obrigo um qualquer artista pop do momento a estimular a minha inexistente energia.

Meia adormecida até ao derradeiro momento do embate com a barreira gelada da realidade – e de uma Lisboa, felizmente, ainda quase adormecida – conquistei as manhãs de Março a correr, pronta para triunfar o ano inteiro.

Não lhe chamo “projecto Verão”, porque não acredito em objectivos a curto prazo e porque se trata de uma mera – e custosa – transferência de um hábito, extraordinariamente, nocturno para uma tortura, excentricamente, matinal.

A verdade é que, galgada a primeira semana – que, deixe-me que lhe diga, venci atacada pela gripe e pela tosse – comecei a apreciar genuinamente a coragem de me levantar sete horas antes das minhas primeiras aulas.

O resultado? Cinco semanas depois, vejo-me aqui, uns quilos mais magra e, verdadeiramente, exausta.

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Março foi assim: estrambólico, repleto e exigente.

Das manhãs compulsivamente dedicadas ao treino em cápsulas potentes e à longa e relaxante preparação de um novo dia aos Domingos perdidos entre castelos, parques e colecções de arte.

Este mês, levei as metas de 2016 – aquelas que prometera no último minuto para esquecer, imediatamente, no seguinte – ao limite, empanturrando-me de boas manias.

Saí muito: ao acordar, precariamente vestida; depois da faculdade, aproveitando os momentos antes do jantar para avançar na minha nova aventura em Murakami; ao deitar, explorando o mundo cinematográfico com vigor; ao fim de semana, recusando o ar viciado do meu apartamento.

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O Museu Nacional de Arte Antiga, que conheci no primeiro Domingo do mês para evitar o custo de entrada – aproveite a dica! – destronou com destreza a exposição permanente da Gulbenkian.

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Quatro horas depois, lá saímos nós para o magnífico pátio – e, além de tudo, ainda dispõem deste espaço, como resistir? – arrastando os pés e os corações tão leves e surpreendidos.

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Ana Torfs com a sua primeira exposição em Portugal, patente no Centro de Arte Moderna, Echolalia, produziu, num Domingo posterior, um efeito de deslumbre semelhante.

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Um brinde à boa arte e à descoberta incessante desses estudos inteligentes de um mundo de ontologia tão duvidosa.

E por falar em ontologia, Março foi o mês das dúvidas existenciais e do questionamento filosófico regado com uma excelente e permanente banda sonora.

Incontáveis foram os quartos de hora de transição que passei de pernas equilibradas sobre a parede e Debussy nos últimos graus do volume.

Arabesque 1 ocupa o lugar cimeiro da minha predilecção, pela sua delicadeza e profundidade.

No grande ecrã, preferi Dr. Estrangelove de Stanley Kunbrick (1964), cuja genialidade foi enaltecida pelo meu recém-descoberto interesse pelas relações internacionais, e Le tout noveau testament de Jaco Van Dormael (2015), cuja desconstrução de Deus, do livre-arbítrio e do reinado da imagem não pode deixar de [co]mover.

Termino este mês marcado pelos atentados em Bruxelas, pela crise do Brasil, pela vitória do MpD, nas eleições de Cabo Verde, pela aprovação do Orçamento de Estado e por tantas outras estórias que pode [re]ler aqui com duas últimas sugestões.

A primeira, o incrivelmente ridículo e, portanto, delicioso, The Office de Ricky Gervais, Greg Daniels e Stephen Merchant (2005-2013). Aguardam-lhe horas de gargalhadas inusitadas.

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Por fim, a entrevista de Flemming Rose ao jornal de Copenhaga Politiken acerca da tolerância política, religiosa, jornalística agora tão mais relevantes! “Tolerância nada tem a ver com indiferença”, comenta Rose.

Talvez esteja na altura de começarmos a repensá-la a par do sempre inflamado debate da liberdade de expressão…

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Que Abril contenha as suas águas, queridos leitores, e que os prolíferos dias de Sol aqueçam mais um mês de aventuras surpreendentes.

Seja feliz!

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