Certezas ou mudar o mundo

Beijou-lhe os lábios ressecados, sentido a temperatura magra do punhal nos seus dedos. Afonso cheirava a fumo, cerveja e transpiração forçada, naquela bonita noite de consumação do destino.

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As pernas lutavam no espaço anoréctico entre lugares. Filas de couro azulado preenchiam a anedota voadora que levaria Mafalda a casa uma última vez.

“Sabe como chegar a Évora?”, perguntaram-lhe uns olhos claros rodeados de abundantes caracóis acobreados.

“Tem de apanhar o comboio, quando chegar a Lisboa”, informou a mulher de vinte e cinco anos.

Afonso vestia um pólo pastel, de um corte cuidado e aroma elegante. Lia O senhor das moscas e beberricava com delicadeza um copo barato de sumo de laranja.

“Já lá foi?”, insistiu o homem. “Não. Fico sempre em casa dos meus pais, na capital”, cuspiu a jovem, expelindo reduzida paciência para aquele pretenso engate.

Doía-lhe o cérebro. Os litros pobres de vodka e vinho que decidira aspirar na noite anterior mastigavam-lhe a capacidade de ouvir o mundo.

“O que é feito de ti?”, gargalhou Alexandre.

O avião seguia apinhado. As mulheres sem formas cuidadas entregavam amendoins e bebidas reles.

“E pensar que um dia me inventaste com tanta destreza”, prosseguiu o fantasma feito presente pela ressaca.

“Não lhe dês ouvidos”, sussurrou Matilde.

A sua loucura ganhara cheiro, palpabilidade e existência. Ou assim parecia e, parecendo, aterrorizava-a.

Mafalda fugiu em direcção ao cubículo privado do tubo de metal alado, saltando o corpo bem definido de Afonso.

O ar da cabine ruidosa cheira a lixívia e ao vómito natural dos intestinos humanos.

A torneira era tímida, mas capaz de auxiliar no alívio. Três comprimidos e um gole de água fizeram do lavatório um portal.

Mafalda estava num elevador sem porta que insista na queda até a uma outra realidade.

“É agora que, por fim, lhe acenas?”, riu Alexandre.

Os espectros tinham-na seguido. Ainda que perdida no Mundo das Maravilhas, a carne guardava a memória da loucura dessa alma.

O eco do corpo reproduzia nada além de canções estranhas.

Mafalda engolia quantidades copiosas de ar, sentido o sufoco daquela vida bizarra.

A parede, onde, um dia, tinha havido uma porta, gritava-lhe. “Está tudo bem?”, parecia-lhe berrar Afonso.

Não havia sinais de verdade naquele orifício. Mafalda pontapeou-o, descobrindo o rosto utópico daquele homem.

“Desculpe, pareceu-me ouvir um estrondo”, comentou o rapaz.

Mafalda encostou os seus lábios ressecados pela maquilhagem, pela dependência e pelo alcoolismo sobre o espanto de Afonso.

O beijo sabia a mel, laranja e felicidade em caixinhas. Nos seus dedos, a navalha que, miraculosamente, tinha adquirido na secção de consumo livre de imposto tremia-lhe nas mãos.

“Deixa-me”, disse, mesmo antes de cravar a sua fúria no coração da corporeidade.

Talvez matando o físico tornaria o presente afísico menos confuso. Talvez transformando o real, se normalizasse essa realidade que insistia na sua lenta e dolorosa condenação.

“Será que sobreviveremos na prisão?”, sorriu-lhe, maliciosamente, Alexandre.

Ou talvez não.

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