Somos quem e de quem mesmo?

Ou como importar mundos, viver um amor e ser [in]feliz.

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“Anda por aí a secção de poesia?”, grito, suavemente, do outro lado da loja.

Na caixa, a lombriga preguiçosa de culpados vai evacuando a armadilha.

Os guinchos da registadora anunciam a anorexia das nossas contas bancárias como quem enforca os futuros com o imaginável.

“Não posso entrar aqui”, comento, por fim. Nos meus braços, dois volumes espessos maltratam o meu fôlego financeiro.

“Só temos Pessoa”, responde-me a funcionária revestida de negro e laranja numa efeméride pobre ao casamento entre o mau gosto e o dia das bruxas.

“Somos quem e de quem?”, sussurra-me o demónio interior.

“De nós mesmos?”, pergunto-lhe, examinando as histórias mudadas que seleccionei como próteses da minha deficiente existência.

“De nós mesmos?”, berra-me o bicho, ruminando os litros inéditos de poesia que o órgão adepto das palpitações me obrigou a devorar.

“Dos outros. Desse outro”, concordo.

O interesse ronrona na base da minha traqueia. Magoam-me as costas e a região cardíaca.

Afinal, esse batimento estrambólico que me impede o sono e a concentração provoca exaustão, mesmo quando a solitude espreita, sorrateiramente, e beija nos lábios a esperança de uma almofada partilhada.

A nossa vida é dos outros. Desses outros que nos vão esculpindo, remotamente. 

Na garganta, inflamam-se as convicções.

Tenho-as aos lotes. De todas as cores e feitios. As dúvidas, então, compro-as em atacado.

“A minha mente é um pântano”, dizia a esposa de João. O meu corpo uma imensa selva.

Estamos perdidos nessa densa folhagem. Sentados sobre uma rocha húmida e esverdeada.

Do outro lado, uns olhos largados num rosto simpático sorriem-me.

Estamos salvos.

Finco, contudo, os pés. Recuso a mão que se estende na minha direcção. Basto-me. Sempre me bastei.

O homem baixo encosta-se ao tronco pálido da árvore que nos separa. Rasga o silêncio com a harmonia deliciosa das suas páginas.

“Anda por aí a secção de poesia?”, grito, suavemente, do outro lado da loja.

Ele lá está, mergulhado na sua fertilidade artística.

Eu cá estou, longe de querer tocar nessa possibilidade, mas, automaticamente, absorta nesse outro mundo de silhuetas.

Somos dos outros. Desses outros embebidos em tardes ao sol, páginas amareladas e trombones afinados.

Sobre os nossos esqueletos, encavalitam-se anos imperdoáveis moldados sob o afiado condão desses estrangeiros.

Somos dos outros e depois?

São eles que um dia nos verão, mas até lá ficamos com eles dentro de nós. É que somos os outros e nem precisamos deles, bastamo-nos!

Para ouvir: Memento de Studnitzky
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3 pensamentos sobre “Somos quem e de quem mesmo?

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