Companhia ou somos dois

Se soubessem como haviam chegado ao desdobramento, certamente recusariam a doçura habitual. Eram duas. Iguais ou semelhantes. Altas, magérrimas e especiais. Eram duas, ou seriam apenas uma e um reflexo?

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O orvalho miudinho cobre os fios magros da relva acabada de aparar. A Lua reclama protagonismo num céu coalhado.

Helena está sentada sobre o mármore esculpido do jardim. Ao seu lado, um copo gasto de gelado de morango chora as últimas gotas da sobremesa.

“Estás pronta?”, fita a sombra que lhes cresce das extremidades.

O reflexo escuro contrai-se, treme e hesita.

“Estás pronta”, afirma, sacando da mala de couro um longo e afiado instrumento de multiplicação.

Doem-lhe as costas. O mundo pesa-lhe sobre a base carcomida da coluna. Esse ego estrangeiro sufoca-lhe a existência. Helena é duas, e não somos todos?

A faca range, penosamente. Golpe após golpe, a sombra desprende-se dessa carne primeira.

“Só mais duas talhadas”, responde a jovem, ouvindo os berros agoniantes da vítima da materialização.

A separação mastiga o luar, vomitando pedaços de luz desfeita em corporeidade.

“Estou pronta”, insiste Margarida, piscando os olhos verde-floresta.

A humidade do arquipélago está-lhe guardada na profundidade dos orifícios.

“Bem vinda, irmã”, abraça Helena.

Os caules frágeis do jardim podado curvam-se sob o peso daquele novo corpo.

“Olá, irmã. Então este é o teu mundo…”, comenta Margarida.

Helena suga um pedaço de ar cujo aroma roça a chuva ou a tonalidade vermelha do chá guardado no armário mais alto.

À memória vêm-lhe os momentos de desdobramento e a primeira sensação de companhia.

Os gémeos são o cúmulo da companhia”, diz, finalmente.

“Os gémeos são o cúmulo da solidão acompanhada, a única forma de ruptura com essa solitude inevitável”, alonga-se Margarida.

Na janela, a silhueta rechonchuda da Raquel ganha espessura.

“Está acordada”, informa Helena, tomando a mão de si própria para a levar ao astro que pariu aquele universo duplicado.

“Somos duas”, suspira Margarida. “Somos duas”, murmura Helena.

Os ombros inebriam-se com o alívio da individualidade.

Ao longe, a morte de Margarida cavalga sem receios.

Ao seu lado, a incompletude de Helena reclama. Mas afinal, quem pensou que a sombra podia ser abandonada à realidade?

Para ouvir: Descriptions automatiques: sur une lanterne de Erik Satie e Alexandre Tharaud
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