Ecrãlismo ou o peso da alma

A solidão é uma quimera tola; o mundo o supremo dos ecrãs; o corpo um recipiente pesado de um “outro” perturbador. O real, a realidade e o imenso nó na minha cabeça.

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Magoa-me a ontologia.

Baloiçam os pés sobre a borda, imaculadamente, branca do leito do costume. Improviso. Arrisco colocar o crânio onde dormem, habitualmente, os joelhos.

O meu corpo é um invólucro pesado. Obeso. Assustador. Agoniante.

Falta-me o fôlego, o sangue e a energia necessária para me manter neste mundo de imagens e materialidades.

Doem-me os olhos. Encerro-os, na esperança de me evadir para esse universo de fisicalidades imateriais.

Thibaudet acompanha-me. A solidão é uma quimera ridícula, narcisista.

Em meu redor flutuam notas perfeitamente alinhadas, suponho. Nada vejo. Ou pelo menos, nada vejo com esses orifícios cansativos que, um dia, tanto me fascinaram.

Magoa-me a ontologia.

Sobretudo, essa incapacidade da realidade se tornar real. Sobretudo, essa prisão grave a que me remeteu a carne.

A avenida vomita peões e automóveis a um ritmo ensurdecedor. Caminho a um passo, semelhantemente, tresloucado.

Gritam-me os gémeos. As minhas pernas são espasmos musculares, dores e agonias.

Do outro lado, multiplicam-se prédios infindáveis.

As fachadas riem da minha clausura, pontapeando a minha calmaria com a sua natureza perturbadora.

“O mundo como primeiro e supremo ecrã”, berro, no meio da estrada.

“Um dia acabarei assim: sem abrigo, excêntrica e aos gritos na rua”, gargalho, num momento precioso de consciência.

A carne arrepia-me. Sinto o desdobramento na raiz do cabelo.

“Esse duplo como prenúncio da morte, não da imortalidade”, sussurra-me Freud.

Fito-o.

Está divertido na sua conclusão, empilhando casos e teses como quem habita um outro plano; um plano talvez livre desses traumas do corpo.

Thibaudet avança. “You’re hands are cold”, diz-me Elizabeth Bennet. Estão, querida Lizzie. Sempre, querida Lizzie.

Ao fundo, a silhueta elegante de Darcy esmaga a minha respiração.

A improbabilidade do amor, do real, da realidade e da imagem impelem-me à loucura.

“Ecrãlismo ou o peso da alma”, contemplo, percebendo a magia da imagem projectada no grande ecrã.

“Ou o real, a realidade e o imenso nó na minha cabeça”, rio.

Magoa-me a ontologia.

Magoa-me essa inacessibilidade física a um mundo tão melhor e tão mais reservado.

A morte disfarça-se de imortalidade nesse mundo reflectido. Estamos dormentes. Inconscientes.

Mas a felicidade tem prazo de validade e a carne tem um peso inesgotável que nos prende a esse precipício do existencialismo.

“Porque estás a ler Nietzsche?”, pergunta-me uma amiga.

“Porque procuro, ansiosamente, esse bálsamo explicativo para a rixa que se abriu entre o meu corpo e a minha alma”, respondo.

Dói-me o desdobramento.

Sobretudo quando compreendo o mundo como reduto de projecções intocáveis. Sobretudo quando nem a materialidade é material e desejo a fisicalidade do não físico.

Baloiçam-me os pés sobre a testa da cama.

Lá em cima, o meu estúpido vizinho faz gritar uma qualquer artista Pop. Odeio-o, acreditando que, a qualquer momento, me falhará a palpitação.

O real é um lugar hiper-imagético, hiper-populado. Estamos todos sufocados com a presença do próximo.

Para quando uma genuína solidão?

Para quando a oportunidade de viver não segundo o animal, mas segundo esse espírito, evadida da obrigação do outro, mas aconchegada no seu regaço por escolha?

Para ouvir: Your hands are cold de Jean-Yves Thibaudet | Quadro: Agostino Arrivabene
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