A vida secreta dos sonhos

“As minhas pálpebras não estão disponíveis para aluguer”, respondo-lhe, suavemente. Ele sorri-me. Acaricia a barba mal crescida que finge apreciar e atiça-me a curiosidade com o olhar mais terno que alguma vez recebera.

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A textura áspera dos lençóis em segunda mão agride a superfície fina do meu rosto. Rosno. A Lua insiste num vómito irritante de luz que não me deixa dormir.

Sobre o tampo envernizado da mesinha de cabeceira, a taça de aveia fumega. Dento a abóbada perfeita de canela e açúcar com a fome infindável das vítimas de insónia.

“Deixa-me”, grito-lhe.

Nos meus olhos está projectada a sua silhueta. Magra, elegante, negra, atraente.

“Preciso de descansar”, suspiro, escutando o riso musical desse monstro a quem um dia dei a loucura da minha humanidade.

Mastigo a aveia, polvilhando a fronha com a canela que me escapa ao orifício de aspiração.

Suspiro. Rosno. Sinto-o sob a camada espessa da minha exterioridade.

Sebastião está aqui, irremediavelmente.

“Vá lá”, propõe ele, com um sorriso caído.

A porcelana treme-me nas mãos. Deixo-a ali, em repouso, invadindo esse mundo onde a ontologia impossível da minha respiração se confunde com a magnitude desse homem.

“Olá”, murmura ele, beijando-me a maçã bronzeada.

“Deixa-me”, respondo-lhe, soltando risadas mentirosas.

“Como foi o teu dia?”, prossegue ele para a base sensível da minha orelha.

“Deixa-me. És impossível”, riposto, fechando os olhos ao sabor daquele contacto interminável.

A minha alma é um mundo. O meu crânio uma prisão tortuosa. Lá presos estão os melhores seres que alguma vez conheci.

Pintei-os um dia. Chovia. Cheirava a plátanos batidos, a furacões e à humidade insuportável do arquipélago.

Pintei-os, condenando-me à impossibilidade.

Será que não lhes dei realidade? Mas, afinal, que lhes falta para ganharem a materialidade desse tecido comum?

“Deixa-me. És impossível”, repito, abraçando Sebastião como se não fossemos uma e a única pessoa.

Somos?

A máquina de lavar roupa berra. Desperto, amaldiçoando esse colega incomódo, tão pouco solidário.

No fundo das minhas pálpebras, levo-o. “Adeus, querida Sara”, vai ditando ele, com a rouquidão a roçar o irresistível.

“Deixa-me. As minhas pálpebras não estão disponíveis para aluguer”, gargalho. “Adeus, querido Sebastião. Até à insónia”, beijo-o.

Para ouvir: Liz on top of the world de Jean-Yves Thibaudet
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