A felicidade tem prazo de validade

A existência é um purgatório doloroso entre a completa insanidade e a insana crença de que a felicidade é para sempre.

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A felicidade não me convém.

Não inspira, seduz ou fascina. É efémera, magoa e sabe tão bem.

A felicidade não me convém.

Especialmente, não quando se entranha no tecido permeável do meu espírito para de lá nunca mais sair.

O anfiteatro está vazio. Do lado esquerdo, os bancos de cimento e Sol respiram a liberdade de um novo dia.

Deste lado, estou eu, num momento raro de relaxamento, Alice, pelas unhas deformadas de Carroll, um turista tão bem vestido que me custa a acreditar, um adolescente enterrado na virtualidade e uma jovem que toma o pequeno almoço ao som dos patos.

Estamos sozinhos, felizes.

Pelo menos, estou eu feliz, ou melhor, [levemente] realizada.

“Gostaria de me conhecer na adolescência”, diz-me o fôlego.

Alimento a ideia.

Nós as duas, tenuamente, assimétricas, a uns quilos – físicos e intelectuais – de distância, a partilhar segredos.

Depois, esse ego rechonchudo esfaqueia-me. Doem-me as costelas.

Os pulmões são chafarizes encarnados prontos a jorrar toda a minha existência.

Fere-me o passado, embora, em boa verdade, o passado seja uma ilusão dolorosa, preparada para nos proteger de nós próprios.

Fito-a. Está a lacrimejar – uma paisagem inédita – e a ditar todos as metas que deitei ao lixo em nome dessa dormência feliz que um dia decidi encontrar.

“Para quê tudo isso? Se somos todos imortais, ninguém o é”, grito-lhe, desperdiçando a minha última reserva de oxigénio.

Faleço, ouvindo ao longe o Yan Tiersen de outros tempos. Debussy corta-lhe o protagonismo só para ser roubado pela grandiosa moribundidade de Richter.

A minha vida é uma orquestra.

Sempre o foi. Mesmo quando a estranheza me parecia uma surpresa estrangeira tão repleta de bonança.

Hoje, preferiria viver uma única nota. Ou será a validade desse fluxo a chave para a sua beleza?

Talvez.

É que a felicidade não me convém, mas agrada.

Engolir cultura, trabalho e ansiedade aproxima-me, perigosamente, desse sentimento invejoso de humanidade.

A felicidade adormece essa besta infantil que me julga, constantemente. 

O pior, é claro, fica-se pelo seu desvanecimento, pela sua coincidência com o enfurecimento de uma dor distante: da incompletude.

O meu crânio é uma gaiola. No seu interior, há um bater ensurdecedor de asas.

Estou cega; limitada a esses pássaros; incapaz de vislumbrar o curso normal dessas incontáveis viagens.

“Somos todos especiais”, berro. “Ninguém o é”, ripostam essas aves.

As têmporas insultam-me.

A insanidade é a resposta natural à calmaria [ou não será?]

A expiração aproxima-se.

Tremem-me os dedos magros. Soluça a minha traqueia. Lá à frente está Cary Grant com a pompa de um eu acomodado. Aqui estou eu, perdida.

Expiro.

Extingue-se o bem-estar. Ruge o monstro indomável, eternamente, aprisionável por essas múltiplas centelhas de sanidade.

“O mundo é o conjunto de textos que lemos, compreendemos e amamos”, responde Ricoeur.

As palavras saltam-me nas veias. A tristeza lubrifica-as. A fluidez anestesia-a. A massa do sangue ganha a espessura de um desastre.

Morro.

Afinal, o homem não é dado a esse final in medias res dos contos de fadas.

A felicidade tem um prazo de validade, mais não seja o do nosso próprio desaparecimento.

Para ouvir: Children’s corner: IV. The snow is dancing. Modérément animé de Debussy e Ránki.

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