Os sem raízes ou essas malditas asas-lâmina

Treme-lhe o invólucro da morte sobre os dedos alvos. Laranja e já bastante usada, a película relincha ao ritmo dos avanços instáveis de Ricardo. “Três, quatro”, conta, acumulando no vale das suas patas um punhado de sentenças.

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A silhueta curvilínea da mesquita ao pôr do sol insinua-se. O homem corre as cortinas, ignorando o bater quente da vida.

Ao longe, o vazio assassina o nada, num jogo constante de poder.

A pasta deixada à entrada vomita panfletos, rascunhos e um computador mais ou menos recente.

O telefone ruge; o correio berra; a galeria de memórias de um tempo insular está aqui, passiva, perdida entre a perdição e a amnésia.

“A quem me encontrar, as reportagens a sair este mês estão guardadas na gaveta superior da cómoda. Um adeus”, dita a base contraída do seu cérebro.

As córneas vão expelindo pedaços da sua respiração.

Vem-lhe a cara daquela criança perdida na guerra que trouxe à ribalta. Surge-lhe a vermelhidão do rosto envergonhado daquele líder que desmascarou.

O seu último fôlego é a praça das vitórias que sempre havia desejado.

A torneira parece receosa. Jorra com pesar o lubrificante da forca.

Ricardo roda-a, tentando aquecer o volume acumulado. Salta o topo da maquinaria como uma conspiração benigna.

A cozinha fica inundada. O orifício do cano é teimoso. Quer ser à força uma nascente. “Calma que não serás”, comenta, quase rindo, o homem.

A fonte principal sussurra ali ao lado. Impede o Apocalipse. Ricardo encaminha-se para o seu.

A cozinha está gelada. Inundada, fria e com um cheiro inconfundível a alho.

Esse odor inconfundível ao imenso jantar de amigos que nunca chegou; esse tremendo aroma ao almoço de família que hoje lhe custa sequer projectar.

“A esterilidade do futuro era tão atraente. Mal sabia eu”, mastiga.

As ampolas doem-lhe na garganta. São grandes. Imensas. Esplêndidas.

Em procissão, lá vão elas ceifando-lhe o brilho nos olhos, a missão e a presença.

Lá fora, a noite faz esquecer o fascínio do final da rua.

Lisboa está calada. Raramente, muda.

Sobre o chão gelado, Ricardo repousa, de olhos fechados e espírito aberto a esse próximo estado.

Correm-lhe pelos nervos os últimos minutos de energia.

“Deixei ficar aquela vírgula. Espero que alguém dê por ela”, relembra, nervoso.

O arquipélago pesa-lhe no lombo. A humidade da Ilha entope-lhe o nariz.

Está longe, tão longe, mas ainda assim sente a exalação absurda desse verde interminável.

Está longe, sempre estivera, mesmo quando permanecera plantado num recipiente que nunca fora seu. 

Doem-lhe as asas, essa malditas asas-lâmina.

Está longe, tão longe. Passeiam aves, a cujas cabeças faltam penas. Nascem os primeiros jacarandás.

Ricardo sorri, sentindo as solas os pés tão leves como há muito sentia o seu próprio coração: sem raiz.

A paz empresta-lhe, por fim, o bálsamo. As lâminas ferem, mas a ausência sabe curar o que a respiração insiste em fazer doer.

Para ouvir: Crystal Winter de Christopher Ferreira | Ilustrações por Monica Barengo
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