O feminismo não é uma moda. É uma guerra fria

Não nos iludam com a permissão da igualdade. A reconstrução da fachada não nos alimenta, sobretudo quando ainda nos pesa sobre os ombros esse olhar violador do género e a certeza de que somos tão fracas que nos será impossível triunfar. 

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Será que, à noite, andam também os homens com o ombro pendurado sob o queixo? Será?

Será que na madrugada correm também os machos com o mundo aprisionado nas suas costas? Será?

Será que o talho que nos expõe com orgulho pensou alguma vez em investir nesse outro potencial mercado? Não? E porque não?

Afinal, parece tão próspera a venda de nacos da espécie feminina que é difícil ignorar as possibilidades dessa carne oposta.

Ou será que é ainda válido o comando, que são ainda anedotas as nossas aspirações, que é ainda permitido o prazer da violação subtil, numa sociedade demasiado iludida para o admitir?

Ora somente quando abandonar o reconhecimento – esse mistério do anerkennung tão bem explorado por Lacan e Hegel – o estatuto de poderoso afrodisíaco teremos, finalmente, a mínima possibilidade de sobrevivência.

Até lá, podemos tornar criminosas as palavras que nos são, grosseiramente, atiradas ou os olhares prolongados, cuja avaliação é, aparentemente, de difícil realização, com a certeza de que o monopólio ainda lhes está na mãos sem qualquer possibilidade de negociação.

Se obrigadas à objectualização, queremos ser as femme fatale do neo-noir, da sedução depois do fim da censura, da manipulação às claras, da acusação a sangue frio do amante.

Livrem-nos desses rótulos opressivos do desejo. Para quando o fim desta guerra fria?

Os fatos severos da vossa masculinidade até podem não servir as delicadas silhuetas que, convencionalmente, nos atribuíram; mas é que as saias voam ao vento, os saltos ferem os pés e a maquilhagem irrita os olhos.

Livrem-nos da obrigação do género. Façam da convenção uma arte: da maquilhagem uma experiência de tomada de poder, da saia uma linha de distinção, dos saltos um lugar no pódio.

Melhor pensando, não se mexam. Um dia, haveremos nós mesmas de nos libertar destes grilhões.

Parece dolorosa a estrada, quando as pequenas vitórias de hoje roçam ainda o humor de taberna. Parece sofrida a caminhada, mas afinal de que são feitas as mulheres?

Desse material invencível que dá fôlego aos mitos e respiração aos arrogantes comandantes desta vida.

De mármore, felicidade e resiliência; de insultos, piropos e assédios convertidos em socos demasiados fortes para ser ignorados.

É a hora. Tomemos as nossas posições.

Mais: Single women are our most potent political force por Rebecca Traister, na New York Magazine || O machismo tem de parar de passar despercebido.

Ilustração: Iker Ayesteran
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