Um mês de estórias [e favoritos]: Fevereiro

Fevereiro inquietou-me; trouxe-me a metrópole, o frio seco e a idade; arruinou o meu orçamento; criou rotinas; deliciou-me. Eis agora o breve desfile dos heróis de um mês tão repleto de mudanças, vícios e paixões arrebatadoras.

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13A. E pensava eu que escolher a perspectiva do precipício no meu número da sorte seria uma deliciosa fatia de paraíso.

Berrava até lhe faltar ar. Os nós dos dedos, vermelhos da violência exagerada, tremiam. Tinha, certamente, menos de sete anos e um desejo incontrolável de não perder as raízes.

Doía-lhe a origem, a terra. Doía-me o ego, a paciência e a vontade de migrar em silêncio.

Nos meus ouvidos, gritava com elegância Zee Avi, nesse dia, salvadora da pátria e da minha sanidade mental.

Fevereiro foi assim: repleto de repetições, conquistas, presentes, inconvenientes, dores e agonias.

Comecei perdida, fisicamente, entre oceanos. Terminei perdida, intelectualmente, entre realidades.

Murakami tivera sido uma porta de entrada para um outro mundo; para um mundo repleto de incertezas, cadeias ilógicas e ondas suaves de poesia em prosa.

Murakami surpreendera-me, mesmo antes de me ver endoidecer face à eterna questão: o que é o real?

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Não, não me internem já.

Fevereiro põe-me sempre assim: num ataque de nervos, estranha [entenda-se, mais estranha do que o habitual].

Traz-me, inexoravelmente, um ano e a certeza de que desta serei uma pessoa melhor: mais normal na minha peculiaridade.

Triste será dizer (admitir) que o bom caminho é sempre tão curto; que a agonia da existência e a exigência da imortalidade me afogam sem pudor em três tempos.

De volta a Lisboa, poucos dias antes de carregar 21 anos sobre os ombros, dediquei-me à conquista de um ritmo que, até então, apenas invejara.

Levantei-me cedo. Fiz-me à estrada. Corri. Corri muito e todos os dias. Pensei. Pensei muito e com doses assustadoras de irresolução.

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Antes, tivera o prazer de convidar os três membros de um clube exclusivo para um chá formal ou melhor tivera a felicidade de acolher as três almas que há mais tempo me mantém à superfície.

Ofereci-lhes bolo (não ainda de aniversário), xícaras, chás e refrigerantes em bules de porcelana.

Recebi o doce néctar da familiaridade. [Só sentimos falta daqueles que nos sabem ler sem esforço, quando percebemos o cansaço do mundo. Estou enganada?]

Dera-lhes os meus melhores anos. Elas responderam-me com as minhas melhores gargalhadas.

De malas prontas, passei pela manutenção do costume.

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Entrei para o tradicional lob, saí decidida com um irreverente bob. E não é que o melhor da vida é mesmo aquilo que nos aparece de surpresa?

O comprimento escasso arrastou-me para fora do meu quadrado de conforto. A vista dos arrabaldes é fenomenal, deixe-me que lhe diga.

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Agora, carrego no Plumful da MAC – um oferta de mim para mim, nessa magnífica terça 16 – e abuso no Cocktail Bling da Essie – uma eterna adição à preocupante colecção de vernizes que guardo na capital- para arrasar o meu próprio coração.

Afinal, que melhor apreciador do nosso trabalho que nós próprios?

Abandonada à aventura, implantei, ainda, a rotina da corrida matinal, que me tem deixado as noites para o estupendo Processo de Kafka.

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No meu pulso, a bestial oferta dos meus progenitores, isto é, um novo e imaculado amuleto cravado com a minha cor predilecta.

Ainda que confuso, Fevereiro soube-me tão bem (sabe-me sempre, não fosse este o meu mês predilecto do ano).

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Entre o resgate do meu novo casaco favorito de desporto nos saldos, a descoberta dos maravilhosos doces da Padaria Portuguesa e a oportunidade de desfrutar do pôr do sol no memorável quinto piso da doce FCSH, senti-me tão plenamente em casa que nem me atrevo a divulgar.

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Estou perdida, sim.

O meu coração é um imenso rasgão entre massas continentais; o meu cérebro não se consegue decidir pela certeza ontológica a adotar; mas sinto que este vai ser um glorioso ano.

Talvez seja Berceuse de Alexandra Strelisky a melhor banda sonora desta emoção. De resto, Pianoscope é até ao fim dos meus dias um oceano repleto de jóias incomensuráveis.

Termino este mês marcado pela sede da Índia, pelo debate do Orçamento de Estado, pela morte de Eco, pelo desaparecimento de Harper Lee, pela estreia do IBAN, nas transferências bancárias e por tantas outras estórias que pode [re]ler aqui com duas sugestões.

Passe pelo Museu Calouste Gulbenkian e aproveite a exposição Wentworth-Fitzwilliam: Uma colecção inglesa. É, de facto, assombrosa.

De caminho, recolha os seus bilhetes para os espectáculos gratuitos Rising Stars e não se esqueça de ler este Meet the small-town mayor risking her life to fight for peace un rural Philippines por Taisa Sganzerla, na Quartz.

Desejos de um Março memorável.

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