Inês ou a morte é um estado de espírito

As rodas miam, furiosamente. O saco de gelo esmigalhado absorve a dor do seu rosto, levando Inês para um outro mundo; para o outro mundo, aquele que lhe roubou a sanidade ao ponto inexistência.

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O dia nasce cinza, luminoso e cansado. Na rua, pares de corredores enfrentam a atmosfera gelada da hora precoce. A temperatura range. Os nós dos dedos tremem. As maçãs do rosto assumem essa estranha tonalidade azul-vermelho que só a metrópole sabe garantir.

Inês observa a rotação da realidade, inerte junto à janela. “Mãe, o pequeno-almoço está pronto”, diz Maria, envergando o camiseiro imaculado do costume.

A idosa roda sobre os seus calcanhares carcomidos. À sua frente ergue-se a silhueta magra de outros tempos, dos tempos de saúde mental ou, pelo menos, de ignorância.

Aos trinta, quando finalmente o mundo perdeu aos seus olhos a máscara, lá se fora toda a sua resistência.

A aveia escalda-lhe a língua, mas o que é o calor? O que é a língua? O que é ela? O que é o real?

O seu crânio vomita questões, dúvidas assombrosas que exigem a sua mutez. “Hoje, volto mais cedo. Pelas quatro, estou aqui, está bem?”, murmura Maria.

Inês fita-a, repleta de tristeza. Afinal, que é da maternidade se nem a mãe pode ter uma existência confirmada? Afinal, que é a própria existência?

O apartamento vazio é uma barca de agonia. Os sons do mundo são, simultaneamente, alertas de uma construção que lhe é exterior e lembretes dos enganos que os sentidos lhe proporcionam.

Entupida, Inês tenta sentir a nudez desse real prometido. Falham-lhe os pés, atira-se dos degraus e aguarda.

Da base das sobrancelhas jorra sangue. Bastante sangue. A vista turva-se. O rosto adormece.

“Mãe”, grita Maria, já de volta a casa. “Vamos, levo-te ao hospital”, assegura, levando-a pelo braço.

No carro, entrega-lhe um saco de gelo. Inês sente a frieza do mundo junto ao pretenso rosto de que é proprietária.

As rodas miam, furiosamente. Lá fora, o trânsito é uma besta tão rude quão mortífera, roubando-lhes as vidas num acidente feliz.

A morte é a libertação. Mas o que é a vida? E se não o é, o que é a morte? Um estado de espírito?

Para ouvir: Like rumours of hushed thunder de Antonymes 
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