Da aleatoriedade da vida ou como aqui chegamos

Não é que me doam as certezas; é que me treme a consciência de que todas elas são frutos estrangeiros de um outro mundo que não eu. Uma crise de meia idade adiantada:

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Devoro a última dentada de aveia da manhã. Pressiono o rectângulo negro que dá vida ao meu universo.

Lá fora, a madrugada ronca, precoce. O ronronar habitual das teclas ansiosas enche o pequeno espaço.

Exausta, entendo, pela primeira vez, Ricoeur. O mundo é o conjunto de textos que lemos, compreendemos e amamos, sussurra.

“E como chegam esses pedaços de vida até nós?”, mastigo, sentido a liberdade nas veias. “E como chegamos nós até nós?”, pergunto, desesperada, chorando a ausência dessa recordação.

É que o destino sempre me pareceu uma construção, inevitavelmente, conseguida pelos nossos próprios actos. A aleatoriedade que agora me consome é nova, conscientemente nova, e assusta.

Afinal, a existência é um episódio banal de aguaceiros fortes. Incontroláveis. No espaço rarefeito entre pingos, lá vamos nós, cientes da nossa certeza.

Mas não serão todas essas certezas, igual e puramente, aleatórias? Como nos oferece Ricoeur esse mundo se até os textos que nos inflamam são coincidências?

A existência é um acaso cósmico, concluo, aterrada.

Perdida na crença de que nas minhas mãos sempre repousara a arma, ignorei durante anos a respiração dessa besta suprema: a rotina, os outros e a genuína novidade.

A escolha, penso, parte ela própria de opções colocadas sem aviso ou porquê no nosso caminho.

O meu ego treme, ameaçado. O seu coração está fraco. A luz do dia invade o casulo em que me mantive até então.

Os outros vão contaminando o meu fôlego. Sinto-os a todos, de rompante.

Percebo a decisão estrangeira do meu primeiro beijo. Entendo o estupendo momento em que decidi passar tardes inteiras ao som de música clássica e teclados encardidos.

“Quem sou eu?”, berro, numa crise de meia idade, tremendamente, precoce. Os meus fundamentos rangem. 

Não é que estejam menos seguros do que antes. Continuo, firmemente, eu. Com todos os meus defeitos, obstinações e virtudes.

Permaneço inalterada, mas agora também inerte face a esta onda de calor que me rouba a agência.

A vida é um dádiva aleatória que nos empurra para esse trabalho que tomamos como estandarte.

Somos, irrevogavelmente, nós. Ainda que muito dessas silhuetas sensuais seja fruto de um tempo – nosso e alheio – que nem ousamos recordar.

Afinal, para onde vamos? Afinal, temos sequer palavra nesse percurso?

A solitude é um mito. Estamos todos ligados pela aleatoriedade dos nossos próprios passos. 

Para ouvir: Buzzcut season de Lorde | Le Sablier de Alexandra Streliski

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