Joy: uma matriarca de força enterrada num sonho

Nomeada para o Óscar de Melhor Actriz Principal, Jennifer Lawrence protagoniza Joy, o novo sucesso de David O. Russell que escapa à mediocridade do realismo por um golpe semi-onírico deveras interessante.

Joy de David O. Russell é inconsistente. 

É, contudo, essa sua esquizofrenia temporal a responsável pela fuga à mais completa banalidade.

Saltamos entre tempos, mundos e realidades. Brincamos com a temporalidade, com o delírio e com a triste decadência. Arriscamos incursões em novelas e sonhos com a maior das facilidades narrativas.

Joy pode até ser um extraordinário apelo àqueles que procuram inspiração nesta história de sucesso.

Afinal, Joy Mangano – a mulher real que dá o mote a esta fita – acumulou milhões de dólares, nos anos 90, ao vender a sua revolucionária esfregona no canal de televendas QVC.

O filme de Russell sobrevive, porém, não à custa dessa revolução empresarial – que, admitamos, se tem tornado bastante trivial, isto é, o empreendedorismo roça, agora, perigosamente, o cliché – mas à boleia de uma aposta artística diferente.

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A sua inconsistência, em conjunto, é claro, com a forte actuação de Lawrence (quase no papel de super-heroína) fazem desta uma fita que não se deixa cair no poço do esquecimento.

Não é que Joy seja uma extraordinária obra-prima. Não o é. É, antes, docemente equilibrada: tem gosto artístico – da temporalidade ao guarda-roupa – perícia representacional e uma grande vontade de agradar.

De resto, o percurso dessa mulher que enfrenta uma família tresloucada, um mundo de homens condescendentes e a falência iminente merece, por si mesmo, alguma atenção.

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Joy é, por tudo isto, uma composição, parcialmente, adjacente ao sonho, isto é, conseguida em movimentos suaves de condensação e deslocamento; de momentos mais ou menos isolados vividos em realidades que se complementam e inflamam reciprocamente.

Em boa verdade, não arrasa corações ou exige gargalhadas. É morno, reflexivo e pouco eficaz.

O seu valor é, todavia, inegável, quando descoberto nessa estranha – entenda-se fascinante – rebeldia narrativo-temporal.

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