Porque a vida é demasiado curta

Talvez um dia me abandone ao balançar suave do destino. Por hoje, basta-me a agonia de jamais ter o tempo necessário a esse amor que me rodeia e inflama. No dia de São Valentim, a triste verdade de como nada pode corromper a solidão humana.

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Não temos tempo para aeroportos, estados intermédios ou despedidas dolorosas.

Não temos tempo para livros, sestas prolongadas ou maratonas realizadas pelo simples prazer do prazer.

Não temos tempo, sobretudo, para viver ao compasso daqueles que amámos.

Dedicada à tarefa complicada de fazer uma gigante mala engolir dois meses de existência, percebo o quão é solitária a nossa condição; o quão tramados estamos nós, condenados a uma viagem, eternamente, imprevisível.

Desafie-se, o conforto pode matar, disse eu, negando que nesse quadrado de familiaridade jazem, igualmente, todos aqueles corações que para sempre queremos conservar junto da nossa alma.

A vida jamais me pareceu curta. Estava eu tão jovem e cheia de energia desperdiçando ricas horas em vídeos, textos, livros e mundos paralelos, quando, por fim, senti a idade invadir-me a corrente sanguínea.

Estou velha. Estamos todos. Sob esse signo da finitude, não há quem não esteja.

Afinal, o cronómetro que nos mata nem é nosso… ao nosso lado, desfilam silhuetas evanescentes, incapazes de parar.

Afinal, os cronómetros do mundo vivem um caos agoniante, fatal, assassino.

Depois, perdemos fôlegos em celebrações vazias só para garantir que não perdemos de vista a nossa condição.

A efemeridade é uma praga. Irrita-me, assusta-me. Não a minha, mas a daqueles que um dia ousei deixar. 

O crepúsculo é uma visão infernal, sobretudo quando ao longe baila a cintura fina do aeroporto ao compasso dos últimos batimentos cardíacos dos nossos corações estrangeiros.

“Há um dia em que percebemos que nunca conseguiremos ler todos os livros do mundo”, disse-me, uma vez, um não tão querido professor.

Há um dia em que percebemos como a mágoa é uma tremenda perda de tempo mascarada de medo: do medo de não termos tempo de viver esse amor até à sua última gota.

 

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