Trumbo: isto é a América, aqui não se diz isso

Nomeado para o Óscar de Melhor Actor Principal, Bryan Cranston protagoniza Trumbo, um olhar perspicaz sobre o imenso poder que os filmes guardam na luta contra uma certa vontade política. 

Inteligente, sagaz e divertido, Trumbo de Jay Roach é a viagem fácil aos bastidores de Hollywood em plena guerra fria.

Bryan Carston interpreta com mestria o infame guionista Dalton Trumbo, que ao recusar negar-se comunista é levado à prisão, ao desemprego e à célebre Lista Negra dos 10.

“É um novo género de guerra. Uma que não existe”, comenta Frank King (John Goodman) perante a possibilidade de contratar um profissional excomungado.

A colisão entre entretenimento e anti-comunismo não podia, contudo, ser mais real.

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Helen Mirren e David James Elliot desfilam nos papéis respectivos de Edda Hooper e John Wayne, um par poderoso na defesa dos ideais de direita da indústria.

O conflito entranha-se com vigor no dia a dia desse mundo de ficção, reconhecido, desde logo, como uma das armas mais poderosas de qualquer lado da disputa.

O cinema é, assim, quase elogiado enquanto ferramenta, tremendamente, eficaz no enquadramento de massas. Os filmes são comprimidos de ideologia.

Trumbo deixa, por isso, clara a impossibilidade de qualquer aspiração apolítica, sobretudo no seio de uma guerra tão gelada como a vivida no final dos anos 40.

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Narrativamente, a fita de Roach é uma delícia: sarcástica, inteligente, leve e fluída. Cinematograficamente, porém, é bastante inconsistente.

Trumbo aparece retratado como uma génio repleto de nuances e humor. Rico e comunista, à beira da loucura, enterrado no vício, estranho.

O guionista é uma pérola fascinante que nos prende ao ecrã, mesmo quando essa tela parece não estar certa dos seus contornos artísticos.

O primeiro terço do filme protagonizado por Cranston é um genuíno arraial de cortes a preto e branco e planos pouco interessantes. As boas notícias são, é claro, a evolução positiva desse trabalho.

Ainda que não se destaque pela sua fotografia, Trumbo consegue conquistar alguma decência imagética ou, pela menos, a suficiente para nos manter agarrados não só aos diálogo, mas, também, aos detalhes.

A composição sonora, a cargo de Theodore Shapiro, é, por outro lado, uma excelente adição à obra de Roach. É sofisticada, obesa, [quase] digna da velha Hollywood.

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Por tudo isto, Trumbo sucede na sua missão: o extremismo político é desenhado com perícia nestas duas horas de entretenimento; mais, o subtil poder da arte é desmascarado com o grau certo de humor e sarcasmo.

A fita protagonizada por Carston convence, apoiando-se no esplêndido elenco que lhe dá vida.

“Estamos na América. Não pode fazer isso”, dizem a Trumbo. “Quem disse?”, deixa pendurado este retrato de um tempo tão conflituoso quão fascinante.

Para ouvir: Trumbo de Theodore Shapiro
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