O outro eu. A quimera é uma arma

Que é feito dos corpos simples? A um canto, está Vitória, duplicada. Lá fora, rosna a luz da madrugada, tentando esconder esse fantasma atado ao presente. A quimera é uma arma. Não a ouse usar.

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Ao longe, o mar ruge mansinho. Doem-lhe os ombros. Vitória devora sem vontade meio pão de sementes.

A manhã acabada de parir ilumina o quarto parco da sua existência. “Que é feito de mim, mulher?”, berra, vigorosamente, o fantasma atado a um canto.

“Levanta-te. Levanta-te. Que é feito da minha imortalidade?”, grita a sombra de outros dias.

A base do crânio contrai-se. Doem-lhe os ombros. O mundo é um fardo obeso, insuportável. “Cala-te”, sussura Vitória.

“Calo-me? Inútil. Levanta-te. Levanta-te!”, insiste a bonita mulher presa pelas finas algemas do presente.

Ordena aos pés um movimento ligeiro. A resposta tarda. Não chega. Ordena às pernas que escapem. Há muito que a obediência se perdeu algures entre o comando e a acção. “Lamento”, diz Vitória, deixando a paralisia invadir-lhe a voz.

“Que é feito de nós? Vitória, levanta-te!”.

Na costa, as roupas salgadas dançam a doce balada do vento matinal. O sol ensurdece os olhos, inibindo-lhe mais esse sentido.

Vitória está presa nesse invólcuro carnal ineficiente. “Vitória, levanta-te! Esquece-te dessa teimosia”, ousa em desespero o corpo colorido.

O calor letal das lágrimas agridem a face cuidada da mulher mais velha. Não tão mais velha assim. “Que queres que faça?”, murmura. “Levanta-te”, responde. “Que queres que faça?”, entoa Vitória.

“Nós tínhamos sonhos. Éramos gigantes”, recorda o espectro. “Tu apareceste. Apresentaste-me a conta. Quiseste muito e muito depressa”, explode Vitória.

Os tornozelos miam, doem, alteram-se. “Puseste-me aqui, nesta prisão”, acusa. “Levanta-te. Vamos!”, propõe com doçura o fantasma.

Vitória fita-o. Fita-se. A um canto daquele espaço nú,  está a sua imagem, colorida, excêntrica, vergonhosa.

“Desaparece”, tenta, fechando os olhos sobre um par de dedos frios. “Desaparece”. “E vou para onde?”, questiona-se.

Está ela ali, duplicada. A um canto, na força da adolescência; no auge desse regime da fama, desejando a eternidade como seu reino.

Numa poltrona gasta, no declínio dos seus vinte anos. Já sem força. Incapaz de avançar. Ciente da impossibilidade dessa silhueta futura.

“Levanta-te”, repetem os seus 13 anos. “E vou para onde?”, experimenta a jovem mulher.

“Vais para onde o vento te levar. Para longe de mim”, seduz a figura de outras viagens. “Vais para onde te chamar o destino. Para longe de ti”, continua.

“Vou para tão longe para quê? Para estar só, ficar só, permanecer só?”, ladra Vitória. “Não vou”, berra, levantando-se.

“Não vou”, diz, escapando à prisão que, por longos dias, a mantivera refém de um projecto inatingível.

“Não vou”, confirma, já longe, já tão só, mas já tão perto desse espectro que mal se aproxima dele.

A imortalidade é um fado cruel, impossível, fatal.

A eternidade uma droga, desejavelmente, ilícita. Lamber-lhe o invólucro é o suficiente para perecer, abandonando a existência humana por um sonho irritante de quem nunca se será.

A quimera é uma arma. Não a ousem usar. E se não o fizerem, ela própria encarregar-se-á da chacina.

Para ouvir: Ambre de Nils Frahm
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