A hora da morte dos contos de fada: matemo-los!

Por uma fantasia repleta de guerreiras, princesas poderosas e rainhas maléficas. Por um universo distante desta realidade inebriada com o quão romântico é a inferioridade feminina. Por uma vida livre dos grilhões desta ficção.

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Sinto a pressão do seu queixo mole sobre a minha testa. “Tia, ainda não leste esta história”, resmunga a minha sobrinha, mostrando-me a pérola recôndita guardada nas traseiras da pequena obra de ficção.

Afino a voz, espanto o sono e inicio a excêntrica teatralizarão que empresto, inexoravelmente, a esse mundo das personagens.

No meu sangue, banham-se figuras imaginárias, dragões e unicórnios. No meu crânio, sobrevivem universos distantes, vozes agudas e possibilidades ridículas.

O meu pulso é um batimento, estritamente, ficcional, mas, ainda assim, livre dos grilhões que um dia aprisionaram o nosso género.

“Por teres vencido o gigante, entrego-te a minha querida fi… isto é patético. Nem mais uma palavra”, grito.

A pequena mulher quase deitada sobre mim espanta-se. Observo-a. Fito aquela última página, novamente. Deixo a raiva da nossa condição crescer.

Mas afinal em que mundo continuamos a viver, quando permanecemos retratadas enquanto propriedades, alvos passivos ou objectos de desejo nestas histórias dos primeiros dias?

Os contos de fada têm, urgentemente, de encontrar um fim. 

Não é que não fosse suficiente o sofrimento de uma vida inteira face às expectativas tolas de um grande amor incondicional, mas é que as suas ramificações são incomensuráveis e, acima de tudo, letais à nossa causa.

Há dois anos, quando percebi que a minha minúscula família ia, finalmente, aumentar, desenhei princesas, escrevi príncipes, defrontei dragões.

Salvei o meu final com um tremendo beijo – afinal, quem não gosta de um grande gesto? – mas fiz da vítima dessa salvação não uma figura mole, de cartão e interesse; uma silhueta rija, tresloucada, capaz de tudo por si própria.

Começa, certamente, aí esse medo fundamental que as mulheres poderosas, inteligentes ou, simplesmente, felizes tendem a inspirar.

Quando é que deixamos de ser recompensas e passamos a ser conquistas?

Talvez no dia em que, guardando a magia no bolso de traz, troquemos a tradição pela genialidade perspicaz das histórias que nos respeitam enquanto iguais.

Sento-me, dormente, deitando ao pequeno livro um olhar de morte. A minha pele está arrepiada. A condição pesa-me, mais do que nunca, sobre os ombros.

Sinto-me ofendida, paralisada como se uma luta inevitável estivesse a germinar no fundo da minha alma. Afinal, o dragão resiste. É a hora.

Para ouvir: Concrete wall de Zee Avi

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