Uma borboleta num mundo de avestruzes

Tremiam-lhe as pernas na manhã em que trocou o casulo de uma vida pela liberdade que só as asas da diferença conseguem emprestar. “Seja uma borboleta, se puder”, pensou Helena, no rodopio parvo de uma cidade que vomitava avestruzes, cegonhas e flamingos.

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As paredes do casulo sufocam-me. Três metros de sobrevivência para dois animais. Dois lados luminosos e uma janela deficiente que insiste em ficar aberta.

“Acho que não se está a adaptar muito bem. Parece-me que nem amigos tem”, responde a avestruz plantada a trinta centímetros do crânio doente de Helena.

O flamingo que nos veio visitar coça a base rosa do seu corpo com a popularidade que lhe é espontânea.

“Este jantar far-lhe-ia muito bem”, comenta a ave colorida, transpirando um bem-estar desconfortável.

As palavras pesam-lhe na ponta da língua. Helena está deitada. Espremida no rectângulo que lhe ofereceram como repouso na metrópole.

Sob a manta suada pelos estúpidos membros daquela solução, o seu casulo arde. Um plano de fuga está já em acção na sua mente.

A avestruz decide devorar os restos de pizza e sumo diluído da noite anterior, negando-lhe o devido descanso.

Há no espírito dessa lagarta em transformação um género sincero de irritação, intolerância e vontade de reaver o mínimo de humanidade.

As lágrimas involuntárias queimam-lhe a pele, cuidadosamente, preparada para uma noite, literalmente, às claras.

“Odeio-te. Odeio-te. Odeio-te tanto, avestruz”, reza Helena num suspiro próximo do desespero.

Inebriada pelos deveres de um dia de mutez inescapável, a lagarta adormece, perdida na claridade de uma avestruz odiosa.

“Helena. Helena. Helena.”, grita-lhe baixinho a avestruz deitada no seu rectângulo pessoal.

A lagarta revira os olhos, roda o seu corpo e empresta-lhe a sua atenção. “Tem estado a tocar há mais de duas horas”, informa, apontando para o gigante relógio despertador germinado na ponta da sua cama.

“Raios, estou tão atrasada”, berra sem voz a lagarta. Os seus pés tentam procurar, em vão, as pantufas.

A avestruz guincha sem consciência da natureza daquele monstro. Helena flutua, naturalmente, sugando o oxigénio deixado aos dois habitantes daquela prisão.

Sobre a sua traqueia, o peso enorme da expressão. Nas suas costas, a leveza das asas de quem escolhe o mistério como caminho para o sucesso.

Decidida, Helena invade as ruas atarefadas da metrópole. Os nossos corpos cruzam-se no trânsito excêntrico de uma cidade de avestruzes, cegonhas e flamingos. “Nada de borboletas por aqui”,  lamenta a lagarta de outros tempos.

“Nada de borboletas por aqui”, repete no receptáculo do conhecimento, onde, supostamente, deveria estar a formar um exército de amigos.

“Nada de borboletas por aqui”, passa a vida a dizer a borboleta cuja mutez deu, finalmente, lugar à confiança arrogante.

Do outro lado da mesa, os olhos albinos do seu correspondente confirmam a sua singularidade.

“Digo isto sem receios. A Helena tem tudo para vingar enquanto borboleta”. Eu sorrio, feliz com o primeiro olhar que não me julga um acidente ousado da natureza.

Nas minhas costas, as asas quase transparentes batem sem cessar. Sinto o conforto tingir-me a pele, mesmo sob a sentença desses flamingos, cegonhas e avestruzes que, eternamente, me condenam ao estatuto de pária.

“Mais uns meses”, suspiro, finalmente, liberta desse casulo de opiniões e receios fatais à minha originalidade.

“Seja uma borboleta, se puder”, murmuro, fitando o grupo de aves indiscriminadas atacar um pedaço conjunto de vida.

Para ouvir: Intro de Black Elk
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