A vida, essa besta que só a nós deixa impunes

Ou a insatisfação crónica.

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As minhas pernas são as da convenção. Os meus lábios são os do persuasivo extremo.

Sentada no interior do veículo familiar, deixo a pálida sombra que é o frio micaelense invadir-me as mãos.

Na base do meu crânio, a pressão insuportável do desconforto. A minha cabeça é o doloroso receptáculo de um eco assustador.

Estou especada perante a origem, acolhendo a morte não literal pela mão do meu ensurdecedor ego.

A vida, essa besta que só a  nós nos deixa impune, jorra, infinitamente, em direcção àqueles cuja constituição corporal se define, apenas, por uma destas maléficas características.

Afinal, o extremamente convencional não está na moda; pelo menos enquanto não for entendido como caminho inédito para lá da calmaria; pelo menos enquanto não passar por lado negro da inconvencionalidade tão desejada.

Depois, violo o silêncio do lar deixado durante a tarde à solidão, enchendo-o com o ruído imenso que é o vácuo que me preenche.

Presa à vontade inevitável de superar o estabelecido, decido-me sempre pela sagacidade da rigidez esperada.

Do outro lado dos ecrãs que povoam a minha – entenda-se nossas – vida, desfilam humanos tão menos dedicados ao perfeccionismo da diferença.

O letal brilho azulado enfurece-me.

A genialidade natural que lhes é tão fácil não é, claramente, apanágio meu, concluo entre uma xícara de um género extravagante de chá e uma comum combinação de vegetais.

Talvez essa tremenda procissão seja mesmo um recorte criminoso, desenhado para atormentar todas as nossas pequenas vitórias.

Ou talvez sejamos nós mesmos, membros deste clube exclusivo, somente, definido, pela pior espécie de qualidade, os mais tristes de uma geração inteira.

A nós que nunca acontece nada: não acontece o mundo, não acontece o génio, não acontece o amor; mesmo quando nos apaixonamos, viajamos, superamos, brilhamos.

A nós nunca acontece nada face ao deslumbre de um mundo de papel no qual acontece tudo.

Para ouvir: Fools de Troye Sivan
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