Spotlight: iluminar os cantos escuros da ribalta

Nomeado para seis Óscares, incluindo o de melhor filme do ano, Spotlight de Tom McCarthy é a visita competente a um dos trabalhos jornalísticos mais explosivos do virar do século.

Durante décadas, All the President’s men de Alan J. Pakula (1976) inspirou gerações de jornalistas desmotivados e levou outras tantas à profissão, inebriadas com o poder quase missionário de Woodward e Bernstein.

Spotlight [ou O caso Spotlight, na versão portuguesa] cobiça esse lugar, mas a competência que assume como linha-mestra subordina esta tremenda narrativa a um gosto cinematográfico duvidável.

Os cenários, o guarda-roupa, a luz e, por vezes, até mesmo o trabalho de câmara arrefecem o entusiasmo do espectador.

Determinado a abraçar este escândalo com o maior realismo possível, McCarthy escolhe o caminho da simplicidade – em alguns momentos, do simplismo – para apagar os repórteres e dar voz às vítimas.

“Se é necessária uma aldeia inteira para criar uma criança, é necessária uma aldeia inteira para abusar dela”, conclui Robby (Michael Keaton) perante as evidências crescentes de que, durante anos, a Igreja Católica albergara a pedofilia como mal secundário, perdoável.

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Spotlight é a visita capaz a esse gigante furo jornalístico que minou as estruturas do catolicismo e expôs um sistema corrupto que admite aos seus delegados uma impunidade divina.

No seio de uma cidade, extremamente, devota, o trabalho de Robby, Mike Rezendes (Mark Ruffalo), Sasha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian d’Arcy James) é uma aposta corajosa digna de comparação com a aventura de Bernstein e Woodward.

Está no seu aspecto e na sua terrível musicalidade o verdadeiro problema desta fita.

Frio, distante e pouco atraente, o filme de McCarthy ultrapassa a demanda realista, arrasando qualquer aspiração à excelência cinematográfica.

Spotlight sobrevive à custa da relevância inegável da sua história, superando a banalidade pelas mãos de Keaton, James e McAdams, cujas figuras descoloridas conseguem, apesar de tudo, brilhar.

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Ruffalo tenta seguir-lhes o exemplo, mas é, somente, na sua grande explosão que valida a sua presença.

De facto, ainda nem o filme começara, já os lábios de Ruffalo, empenhados num sotaque que lhes é estrangeiro, convidava o espectador à saída.

A Ruffalo falta a experiência sagaz, mas equilibrada de Keaton; falta a sensibilidade calculada de McAdams; falta a capacidade de vestir o jornalismo para lá do cliché flagrante que tenta consolidar.

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Spotlight fica, por tudo isto, longe dos clássicos que levaram multidões à profissão. 

Se o sucesso de Pakula, consolidara o lugar ao Sol do escândalo de Watergate, a obra de McCarthy age, inversamente, trazendo a um caso que correu o mundo uma meia-luz decente, mas, infinitamente, ineficaz.

Extraordinário na fabricação de uma teia apertada de personagens e encontros, Spotlight pinta um retrato cujo fascinante fundamento se vê banalizado em duas horas sem som, imagem ou ambiente dignos da nossa plena atenção.

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