Persuasão ou a calmaria que me inflama é imensa

Foi naquela noite que a vi, a figura fantasmática que, outrora, vivera no interior deste meu idoso invólucro sobrecuidado.

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Preparo um jantar simples. Alguns legumes salteados. O odor a alho e azeite invade o minúsculo apartamento que, ultimamente, dei-me ao luxo de sustentar.

“Boa noite, vai ser assim o telejornal”, grita o pivot da televisão. Desligo o aparelho com a fúria de quem evita um terrível período de tortura.

A madeira maltratada da mesa de jantar arranha as minhas mãos dispostas sobre a refeição.

Vou folheando a mais recente edição de um qualquer jornal de qualidade, na esperança de encontrar, no final, as palavras mágicas “Estamos a contratar”.

Não estão.

Os legumes roçam, ameaçadoramente, o queimado incomestível. Deito-os fora, ignorando a convenção que dita que esta fome pede uma dose de jantar.

Lá fora, a Lua está tão alta que mal a consigo apanhar. Sinto o tremelicar da janela. As rajadas apressam-se, hipnotizando-me sem esforço.

Fico especado, por alguns momentos, percebendo-me numa completa solidão.

A roupa negra que envergo, desde a ocasião funerária que, infelizmente, tivera de assistir contrasta com a palidez coada da minha pele.

A minha silhueta é um autêntico cadáver. Sobretudo, depois de, aos 80 anos, perder a mulher que, por mais de metade da minha existência, cuidou de não me fazer cair nesse precipício fácil.

Penso em Inês. Na sua pele enrugada dos últimos dias. Nos seus olhos verdes agora degenerados pelo solo. Penso até no hálito fresco e açucarado dos seus lábios.

Devagar, escolho o seu par predileto de pijamas. Um oceano de azul com riscas beje. Sofisticado e doce. Tal como ela.

Deito-me sobre a cama vazia de casal, ouvindo o rugir manso do mar não muito longe. Os joelhos tocam-me, estranhamente, no peito.

Há anos que não experimentara esta posição fetal, mas aquela sombra que ali vai assusta-me tanto que força a minha flexibilidade.

Sou eu. Tenho a certeza. Resta saber se enquanto espírito vivo, se enquanto memória de uma partida lenta.

Descubro a resposta a esta dúvida pulsante, escutando o esvaziar compassado dos meus pulmões. A calmaria que me inflama é imensa.

Estou, ainda, acordado quando Inês me toma as mãos. Os pés desnudados arrepiam-se no contacto com o soalho gelado. Estou de pé, na companhia do passado face a mim próprio.

Toco-me e concretizo a extinção que já adivinhara no conforto do repouso.

“Só mais uns minutos”, sussurra-me esta querida mulher. Observo o rosto ausente do meu espírito, perguntando-me se será esta a figura que levarei para a outra vida.

Abraço Inês, por momentos, em pânico.

Deixo o veneno daqueles segundos entupir as minhas veias, para logo depois sentir esse chão não, apenas, nos meus pés carcomidos, mas em toda a superfície sobrecuidada da minha respiração.

Para ouvir: Endless story about the Sun and the Moon de Kai Engel
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