Carol: um círculo completo de coragem

Cate Blanchett e Rooney Mara protagonizam Carol, a história fascinante de um romance ousado aniquilado pela vastidão descuidada de sentimentos mudos. Nomeado para seis Óscares, o filme de Haynes encanta, nos momentos felizes em que não aborrece.

Enterrada em brinquedos, fitas e papéis de embrulho, Therese (Rooney Mara) vê correr os dias entre um emprego que lhe paga as contas e ajuda a sustentar um sonho e um romance convencional a que não se quer prender.

Therese está, essencialmente, só no mundo (afinal, não estamos todos?), assumindo-se como personagem secundária da sua própria respiração.

No seu rosto, está pintada essa distância que, apenas, se quebra com a entrada extravagante de Carol (Cate Blanchett), uma mulher com bagagem, classe e resquícios da loucura de Jasmine de Blue Jasmine (2013).

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“Gosto do seu chapéu”, elogia a decadente Carol.

Therese fita-a, abismada num misto de desejo e incerteza, que sobrevive na resistência platónica dessa relação.

Não é que esta paixão seja difícil de congeminar. A história que Carol aspira contar é a experiência relevante da homossexualidade nos anos 50, mas grande parte do seu corpo parece ficar mergulhado num monólogo interior lento e incapaz de agarrar o espectador.

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Carol de Haynes é, ainda assim, frequentemente, uma obra de arte.

Os grandes planos desses rostos dilacerados pela convenção e pela desejo são, absolutamente, magníficos.

Há no olhar do realizador uma criatividade, minuciosamente, atenta ao detalhe que transporta esta fita para um outro nível cinematográfico.

Blanchett e Mara contribuem, é claro, para esse sucesso, apostando em representações poderosas de dois estados de alma distintos.

Therese é uma voz tímida, em conflito consigo mesma, que, gradualmente, consegue despertar alguma empatia no espectador.

A aspirante a fotógrafa foge ao esperado, perdendo-se nesse período de descoberta que, por vezes, nos deixa à porta, longe desse apetitoso centro-duro da emoção.

Carol é a sofisticada protagonista cuja experiência e força são incontestáveis. O dilema familiar que a persegue e a perseverança que a caracteriza fazem desta uma extraordinária mulher.

CAROL

Sozinhas são casos de estudo fenomenais – embora só em par consigam concretizar todos esses contornos dignos de observação – mas, uma vez, ligadas, Carol e Therese funcionam como antídotos para a genialidade das suas respectivas personagens.

À distância, enquanto possibilidade, são motores preciosos de uma narrativa que se anuncia repleta de tensões.

No interior requintado do carro de Carol, na sua casa ou, finalmente, no quarto de hotel que permitirá a consumação da sua relação, persiste, contudo, uma lentidão pouco atractiva, um choque entre passados e condições sociais; até mesmo uma dúvida relativamente às verdadeiras intenções de Therese.

Carol - 2015

A linha sonora não ajuda, é verdade. Inconsistente e em constante refiguração, o trabalho de Carter Burwell, arrisco, ameaça o ambiente que Haynes criara, transformando este filme numa série de eventos cuja conexão é menos do que ténue, inexistente.

Perdido em momentos e não numa esperada experiência uniforme, o espectador mantém-se à tona, quase abandonado à desatenção.

Inspirada na obra de Patricia Highsmith, The price of salt (1952) [O preço do sal, em português), Carol é uma fita cuja irreverência surge no ano da irreverência, tornando-se, ainda que não menos importante, numa adaptação sofisticada e comum de qualquer outra história de um amor proibido.

Carol é uma oferta delicada e subtil de superação e força, que na introspecção que julgara colmatável pelo excesso da beleza imagética comete o erro de se arrastar, prometendo uma cadeia de eventos previsíveis, somente, recuperáveis pela excelência do seu final.

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