A loucura ou a realidade não real

Corria-lhe na língua o pêlo espesso das patas. Empoleirada no cimo vertiginoso do muro precário que se havia tornado na sua casa, Eva mastigava o nascer do Sol, congeminando a caça à sua próxima refeição.

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Lá em baixo, o movimento parvo da pressa humana começava a levantar-se.

Sem pasta ou casaco fino, o corpo mole de Henrique debitava ideias e protestos num semblante vazio de razão.

“Cortam-nos o vocabulário, cortam-nos o pensamento. Cortam-nos o pensamento, cortam-nos as palavras. Cortam-nos o vocabulário… mas tem que haver um pensável indizível”, berrou o homem.

A silhueta flácida, provavelmente, gasta pelo quebra-cabeças encostou-se ao edifício.

A três braços de distância, Eva baixou os olhos verde-ervilha, balançando as patas traseiras em preparação para o salto olímpico.

Sobre os ombros tornados descidas acentuadas, Henrique sentiu o peso considerável dessa besta não doméstica que caíra do céu.

“Oh olá, bichano”, sussurrou-lhe, puxando o corpo, incrivelmente, macio do animal. “Bichano, não, por favor. Eva”, respondeu com o humor por um fio a vadia a rondar a obesidade.

As mãos trémulas de Henrique repeliram o monstro falante. Em quatro patas, Eva fitava-o, descontente.

“Não tenha uma mente tão mesquinha. Os gatos, também, podem falar”, cuspiu-lhe a felina, alinhando a postura.

Os pés doíam-lhe. A idade trouxera-lhe o desconforto de preferir o repouso. Ainda assim, correu como quem foge da ilusão fabulosa de um “eu” alternativo.

“Estou, finalmente, louco. Aconteceu. E todas estas horas desperdiçadas na censura”, bulia o homem de sessenta anos.

Ao seu lado, Eva fazia encontrar as patas traseiras com as cuidadas patas inferiores. “Não corra. Só estou a pedir-lhe uma refeição”, tentou a gata.

O ritmo flutuante dos trabalhadores perturbava o projecto de fuga de Henrique. Tropeçava, abrandava, esmagava um qualquer apressado dedicado  ao sentido contrário.

Sem esforço, lá estava ela, a sua loucura a correr a par dos seus pés.

A calçada devorava-lhe as solas e as reservas de energia.

Velozmente, a respiração bruta mas profunda fez-se substituir por um sentimento de estrangulamento férreo que logo deu lugar à vivência curta dos seus últimos minutos.

Deitado perante a corrida diária dos normais, Henrique fazia cair homens e mulheres em saltos desengonçados.

O seu cabelo curto absorvia a humidade que pairava, estranhamente, sobre a metrópole.

À esquerda, o coração fazia-se ouvir no par surdo de ouvidos ineficazes.

“Isto é um não?”, ousou a gata preta.

Os seus olhos lacrimejavam, observando os últimos segundos dessa vida ceifada pelo susto de uma outra realidade que não a real.

Nem mesmo os loucos estão, afinal, preparados para a loucura.

Para ouvir: Séduction de René Aubry
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