Adiar, criar, arrasar: o vício feliz da procrastinação

Evite correr, despachando tarefas para depois aproveitar o tempo livre que um bom trabalho oferece. Comece pela preguiça, adie, deixe o dever a secar fora da caixa até ao momento excêntrico da resolução. Boas notícias: a procrastinação pode, afinal, ser uma bênção disfarçada!

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À meia luz, longe de encontrar o efeito anestesiante das altas horas, escutava o bater acelerado do meu pulso.

Lá dentro, a fúria bestial de um mecanismo incessante empilhava tarefas, deveres e obrigações como quem há muito não devora uma bela refeição.

Inquieta pela natureza infeliz do meu crânio, rondei sobre o imaculado pijama que escolhera para aquela noite, agarrei o meu companheiro de cama e deixei a sua luz gritante queimar-me mais alguns neurónios.

A procrastinação é um vício, dizem-me. A procrastinação é uma bênção, explica Adam Grant no The New York Times.

A procrastinação é um monstro causador de úlceras e vitórias, exclamo eu, do alto do prédio de ideias que, horas depois, consegui alinhavar a todo o vapor.

Tantas vezes perdida no vácuo da incerteza – ou melhor, da certeza de que não sou capaz de fazer o que deveria fazer, naquele momento – experimento séries, filmes, livros, crónicas e notícias com a ansiedade parva de quem nunca mais lhes terá acesso.

A produtividade é uma maldição, já lhe disse, sobretudo quando o prazo ainda vai longe, a fonte está praticamente seca e há tantas novidades para descobrir.

No final, uma séria dor de estômago, a fome de completar a tarefa em questão e a loucura criativa tomam conta do processo, comprovando a brilhante tese de que, afinal, adiar é sinónimo de pensar lateralmente, escapar à caixa da convecção, ultrapassar o pretendido.

Entre a cama, o sofá e a cadeira, altamente, desconfortável do computador, vou arrastando a minha pálida silhueta e a manta tornada prótese nos últimos dias.

O “Alex” pode ter sido um orvalho hipermediatizado, mas os estragos emocionais que causou são, verdadeiramente, reais: um sentimento negro de preguiça que só a canção triste e confortável da chuva contaminada pelo vento consegue ditar.

Encerrada num cubo de betão e madeira, forço-me ao trabalho, desviando as atenções para o que por aí andaram a dizer.

O resultado? A conquista de um território que a imediaticidade produtiva declarara interdito.

O pânico que só o último minuto sabe gerar tende, é certo, a estrangular a tranquilidade que nos acomodara.

A criatividade, concluo, mora nesse intervalo entre a insanidade cruel da convenção e a preguiça ineficaz.

Adie, aconselho-lhe eu, não o mais que puder, mas até ficar especado na rua, aos meios saltos, a berrar ideias e comboios infinitos como quem perdeu os parafusos no quilómetro anterior.

A genialidade é fruto desse descuido disciplinado que ao ignorar o problema o remete para o centro de acção que o tomará de assalto nos momentos menos convenientes.

Prepare-se para o seu melhor trabalho com uma belíssima xícara de chá, um bom livro e todo o tempo descartável que, uma vez reciclado, se tornará na sua melhor arma.

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