O valor de uma vida ou a elite

Do outro lado da ponte, uma imensa selva. Sentada à beira-rio, Sara escutava o bater ligeiro das ondas inventadas de uma travessia irreal. O sol ponha-se teimoso nesse seu último dia de aprisionamento.

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O bater ruidoso dos grilhões contra o calcário estudado da calçada avisava a hora de recolher.

Sara ergueu os quilos de existência e metal em direcção ao prédio compartimentado que, há mais de dez anos, lhe servia de castigo.

“Prisioneira 153, por favor dirija-se à secretaria ao amanhecer”, gritou-lhe um dos guardas mal equipados daquela pequena amostra de inferno.

O apartamento cheirava a alho e a incenso. Rute tinha estado, de novo, a experimentar novas formas de relaxamento.

A hiperactividade que lhe fora diagnosticada tardiamente e já em cativeiro aconselhava-lhe formas alternativas de tranquilidade.

O incenso trazia-lhe doses excessivas de normalidade, dissera-lhe uma vez a mulher podre.

O alho lembrava-lhe a cozinha que assaltara em busca de financiamento para o seu vício.

A mistura entupia-lhe o espírito de boas e afiadas recordações desse outro lado do continente separado por um rio imaginário.

“Qual é a primeira coisa que farás mal lá chegares?”, atirou-lhe, subitamente, o humano em contorção fedida.

Sara acarinhou os pulsos aumentados pela vigilância constante.

“Vou vê-lo. O meu pequeno homem. A razão pela qual cá estou”, respondeu-lhe, sentando-se na cama suja.

“Achas que ele ainda te reconhece?”, experimentou Rute. “Nem sei se me vão deixar entrar no orfanato. Não tenho, propriamente, um cadastro limpo que me recomende”, divagou Sara.

A escuridão tinha invadido o espaço. A noite jamais trazia claridade artificial às reclusas dos blocos C. “Contenção de despesas”, explicara-lhe o responsável pela visita guiada há mais de uma década.

A luz coada pelo gradeamento fino do pequeno orifício de respiração mostrava-lhe uma Lua acinzentada.

“A Lua traz chuva”, concluiu Sara, ouvindo o chocalhar repentino do sono de Rute.

O prédio estava mudo. Tão mais mudo do que o habitual.

Ao fundo, o rio invadia as margens, trazendo o transporte que a levaria para lá do nevoeiro; para lá da armação encarnada deste lado da realidade.

“Isto não é um exercício. Formem filas nos corredores e saiam pelas saídas de emergência”, berrou sem aviso o guarda digital.

Rute abriu os olhos relutante. “Outra estúpida que não sabe brincar com o fogo”, resmungou, arrastando os pés carcomidos pela ausência de calçado adequado.

A maçaneta tremia-lhe nas mãos. Sara sabia desse costume patético das portas controladas: o sistema, esse génio inquebrável de protecção, falhava, frequentemente, na sua libertação rotineira.

“Raios, Rute. Estamos trancadas”, gritou-lhe quase em pânico.

“Calma, mulher. Quando fizerem a ronda de certificação encontrar-nos-ão de certeza”, disse Rute, encostando-se, carinhosamente, à almofada.

Adormecida nessa esperança, Rute havia de perder o fôlego.

Sara, desperta e desesperada, havia, contudo, de sofrer a invasão desse incêndio – iniciado no imediato piso inferior – como quem escuta à balada agoniante da voz humana.

Vítima de um sistema selectivo de sobrevivência e esquecida, sobretudo, pela certeza egoísta de que duas vidas aprisionadas, sujas valeriam muito menos do que qualquer potencial dano à existência de um membro dessa elite nacional – a segurança – Sara perderia a sopro feliz que, em menos de 24 horas, lhe estava, derradeiramente, prometido.

Para ouvir: Passing phase de Andrew Skeet

 

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