The Danish Girl: Este corpo não é meu. Leve-o

Eddie Redmayne transforma-se com mestria em The Danish Girl. A mais recente longa-metragem de Tom Hooper investe uma ternura incomensurável no tratamento arriscado de um dos temas mais polémicos da actualidade: a transexualidade.

Sentada na última das cadeiras que formam uma perfeita fila em desalinho, Gerda (Alicia Vikander) chora, desesperadamente.

Nessa noite, num qualquer jardim parisiense, a solidão desoladora provocada pela transformação do marido invade-a, pintando-a à semelhança das ilustres silhuetas de Edward Hopper.

The Danish Girl (A rapariga dinamarquesa, na tradução portuguesa) faz a primeira pessoa a experimentar a cirurgia de mudança de sexo dividir o protagonismo com a sua esposa, num ritmo doce, sofisticado e encantador que suaviza as características avassaladoras de tal processo.

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Lili Elbe – anteriormente, Einar Wegener – (Eddie Redmayne) pode dar nome, fama e interesse ao filme, mas é, infelizmente, Gerda Wegener o verdadeiro centro das atenções.

“Este corpo não é meu, professor. Leve-o”, implora Lili, num dos raros momentos de autonomia.

Redmayne interpreta-a com excelência, embora pouco seja o fôlego concedido a essa fascinante história.

The Danish Girl é um, por isso, um trabalho de vasta sofisticação imagética, de tranquilidade e beleza, incapaz de reproduzir a verdadeira tempestade de que estávamos à espera.

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A composição do plano, a coloração, o guarda-roupa, a cinematografia, a delicadeza da sonoridade contribuem para uma experiência pacífica em nada de acordo com o conflito subjacente à transformação retratada.

Se à primeira vista, o espectador mais esperançoso pode tomar essa justaposição de enquadramentos belos como estratégia de contraste com essa vida interior de Lili; à segunda, perceberá que se trata, efectivamente, de um investimento quase simplista num jogo, vincadamente, orientado para a atenuação do dilema.

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Redmayne consegue transformar Lili numa protagonista de monumental empatia.

Do primeiro ao último minuto, transpira a certeza dessa outra existência num corpo que não é o seu sem jamais roçar o escândalo.

Vikander sucede, por outro lado, enquanto companheira leal dividida entre a paixão egoísta que nutre pelo marido e o amor que tem por esse amigo.

The danish girl é uma peça de subtileza encantadora, mas, todavia, verdadeiramente, ineficaz.

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Quando, no final, o lenço de Lili voa à semelhança da ave que, por quatro vezes, perturbara, anteriormente, a calmaria dos planos de corte, o espectador, actualiza essa liberdade derradeira.

A nós já nos pesa, contudo, o cansaço de duas horas mais centradas no conflito da perda do marido do que da transexualidade.

O filme de Hooper pode ser um marco inestimável na História do Cinema; pode até mesmo superar a beleza já incomensurável do notável Discurso do Rei (2010); mas confunde-se num esforço infrutífero, negligenciando a mais importante das vozes desta narrativa.

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