Ficção nacional faz “Terapia”: O adeus às novelas

Virgílio Castelo Branco protagoniza Terapia, a nova aposta da RTP no combate ao monopólio que as novelas exercem sobre o horário nobre nacional. Estará Portugal preparado para a mudança?

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O gabinete de Mário (Virgílio Castelo Branco) transpira sofisticação.

Não aquele género exacerbado de elite que o horário nobre privado tende a publicitar, mas aquela espécie multifacetada de requinte de quem, há anos, colecciona pó e camadas de interesse.

Terapia, emitida de segunda à sexta na RTP e, convenientemente, disponível na RTP Play, é uma oferta cuja simplicidade profunda destoa da comum ficção nacional.

A série produzida pela SP Televisão reutiliza a premissa do programa israelita Be Tipul, imprimindo-lhe uma marca deliciosa de ironia que trespassa [e ultrapassa] o singelo formato do monólogo característico da psicoterapia.

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Às segundas, Mário atende Laura (Soraia Chaves), uma desgraça emocional entre a traição, o medo da solidão e o desejo.

Às terças, Alexandre Gomes (Nuno Lopes), uma consciência aguçada que, a viver no limite, enfrenta os seus próprios (e muitos) fantasmas.

Às quartas, Sofia Cruz (Catarina Rebelo). Às quintas, um casal a lutar contra a paternidade (Filipe Duarte e Maria João Pinto).

Às sextas, troca de poltrona e é ele mesmo o paciente agora estudado pela sua mentora, Graça Ribeiro (Ana Zanatti).

Até Fevereiro, todas as noites (às 22:56), pode sentar-se em frente ao pequeno ecrã estarrecido pela qualidade inédita de Terapia.

Desde logo, há o bom gosto fotográfico, a meia luz e a coloração quente que envolvem o espectador num jogo estudado de planos, geometricamente, pensados.

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Do outro lado da sala, o encontro com os pacientes é abrupto.

A história de Laura, a arrogância de Alexandre ou a adolescência de Sofia atiçam a repulsa de quem está acostumado a encontrar semelhantes silhuetas no panorama novelesco nacional.

Engane-se, contudo, quem faz perder a sua atenção nesses primeiros momentos e muda de canal.

Há em Terapia uma linha-mestra inteligente (entenda-se sarcástica) capaz de nos fazer gargalhar nos momentos menos esperados.

O monólogo quase nunca entrecortado pelo psicoterapeuta dos vários pacientes é um verdadeiro teste de fogo às capacidades do elenco.

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Os três episódios já disponíveis fazem crer que esta possa ser uma aposta ganha junto daqueles que, cansados da oferta repetitiva e redutora dos dias de sempre, encontram na primeira posição das suas televisões histórias que, pela sua trivialidade, fascinam.

Com sincera esperança que a ironia monumental subjacente a estas personagens persista e que o excelente novelo de momentos infinitos não se esgote, vejo em Terapia uma ruptura interessante com o prato principal do costume.

Veremos até quando se aguenta…

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