Evite a madrugada ou a vitória tarda

O aroma a melancia e menta do cabelo acabado de secar entupia-lhe os sentidos. Deixado ao lado do amor de uma noite, Alexandre escutava o crescer monumental da sua barba, sentindo a completa solidão que, irremediavelmente, antecede a eterna quietude.

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A pele macia da colega daquele evento de distracção roçava contra os seus lábios ressecados.

Decidido a esquecer aquele incidente repreensível, a estrutura musculada arrancou os haveres do divã descuidado e enfrentou a noite transformada em madrugada da capital.

O tráfego anoréctico anunciava uma hora incerta, pouco recomendada.

A escuridão adormecia o gélido receptáculo, mascarando-o, sorrateiramente.

Alexandre vagueava entre o encarnado desbotado dos passeios do corredor e o branco encardido da tradição, pronto a seguir rumo a um destino ainda por delinear.

“Passe a carteira”, sentiu a navalha alojada entre as costelas esculpidas.

“Calma, amigo”, sussurrou, oferecendo o invólucro gasto da sua pequena quantia habitual.

“Está a gozar? Dez euros? Que bebo eu com isto?”, cuspiu-lhe o homem sujo pela desumanidade.

“Não tenho mais nada…”, começou Alexandre, rodando os calcanhares.

“Não brinque comigo, companheiro. Olhe ali a caixa multibanco”, berrou, suavemente, o alcoolismo encarnado disposto perante os seus olhos.

As mãos trémulas do atacante ameaçavam um bem de fraco valor como quem aposta num jogo moribundo, perdido à partida.

Alexandre seguiu no fio da faca até ao reluzente chamariz da desgraça.

“O seu código”, murmurou-lhe o hálito tóxico, depois de ter alimentado a máquina.

“6537”, respondeu-lhe a vítima, introduzindo-o, simultaneamente.

A calmaria coçava-lhe a pele arrepiada. Os táxis descontrolados dos voos extraordinários da companhia aérea nacional aceleravam sem pudor.

Do outro lado da  estrada, as luzes efervescentes da salvação anunciavam, em histeria, o fim do pesadelo.

Alexandre, no topo dessa aposta, sentiu a invasão gelada da faca na boca felina do estômago.

“Que foi você fazer?”, acusou o assaltante, abanando de necessidade e, ainda à espera – estupidamente à espera – do vómito valioso da máquina.

Deitado sobre o quadrado brilhante de permanente disponibilidade, Alexandre sentia a ferrugem salgada contaminar o seu palato.

“Mais um dia na grande cidade”, pensava, espreitando a claridade mentirosa que escolhe sempre o rosa por tonalidade matinal.

Lisboa despertava quieta. Hipócrita e desnecessária.

Ao longe, o delinquente escapava.

Ao longe, a ambulância de sirene idiota – aparentemente, confundível – guinchava, esquecendo-o ali, ao falecimento.

O vento cortante beijava as faces rosadas do cadáver pálido daquele que fora um dia um conquistador pronto a arremessar o universo pelas oito da manhã.

A vitória chega sempre tarde de mais, até mesmo para os madrugadores.

Para ouvir: Pauvre Simon de Sylvain Chauveau
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