Novos para casar ou as conquistas dos outros

Entre a carreira, a família e o sucesso, o mito de que tudo é possível a seu tempo. Estaremos prontos para acreditar que há mais do que uma forma de ser feliz?

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No cubo gelado que termina a estrutura assimétrica da casa de família, estava eu sentada entre as observações da minha mãe e os meus múltiplos pensamentos.

“Falaram sobre as suas profissões”, dizia a progenitora, dentando a fatia macia de pão. “Queixaram-se, por certo”, arrisquei eu, certa desse costume pouco saudável.

“Não. Já ficaram efectivas. Falaram sobre os seus trabalhos”, continuou, bebericando o líquido castanho que abundava na xícara natalícia.

Do outro lado da mesa, presa aos meus quase extintos vinte anos, começava a perceber a distância a que estava dessas vidas tão plenamente concretizadas.

Casas, filhos e profissões seguras num misto, socialmente, doirado a que eu nem começara a aceder.

Nas escadas da minha adolescência, a multidão que éramos nós, jovens entusiasmadas com futuro, acreditava que o amor para sempre ficava, literalmente, do outro lado da esquina.

Ou melhor, ficava, indubitavelmente, no liceu – essa época áurea – onde a maturidade masculina, finalmente, acompanhava a feminina, atenuando as razões que, nesta altura, significavam o final das relações efervescentes.

Depois, veio esse monumento. Repleto de portas, corredores e horas quase livres, que havíamos de investir em quilos extra.

No último ano, mais do que nunca confiante na minha promessa de que nada me prenderia à insula que me criara, olhei para o corpo que esculpira à medida de um sonho e, por fim, percebi que saltara esse estágio essencial à vida perfeita que as que me eram mais próximas começavam a experimentar.

“Somos muito novas para casar”, ri-se uma amiga que recusa admitir a sua idade. “Nada em mim mudou”, acrescenta, já sem esse ar divertido que parece sugerir a nossa correcção.

O pior, congemino, é que essa mudança não se deteve em mim, deixando-me, ainda assim, presa aos grilhões frios de uma carreira que passa ao lado desse percurso linear de familiaridade.

A celebrarem os seus trinta, observo essas mulheres quase novas cheias de conquistas e sinto o roncar da minha barriga esfomeada.

Ao meu lado, desfilam companheiros de armas de outros tempos, grávidos de promessas a quem nem as silhuetas consigo adivinhar.

“Quero ser correspondente de guerra”, gargalho com toda a seriedade, num momento, para logo depois começar a sentir a solidão dessa escolha na massa do sangue.

Existe, quiçá, um limbo apropriado para nós, criaturas de uma época quimérica em que há tempo e espaço para tudo?

Provavelmente, não.

Um dia, enrugadas e concretizadas na nossa euforia [fria] profissional talvez encontremos a validação necessária às nossas escolhas.

Por agora, parecem opções egoístas de quem, loucamente, se atira a um precipício sem ponderar os arranhões que esse salto trará ao mundo.

Por agora, parecemos crianças à espera de viver, num universo que não espera por ninguém.

 

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2 pensamentos sobre “Novos para casar ou as conquistas dos outros

    1. A correspondência de guerra guarda um lugar muito especial na minha bucket list. É, simultaneamente, o auge daquilo que encaro como a missão do jornalismo e um acto de extrema generosidade. Tenho pena que, cada vez mais, a precariedade esteja a invadir este ramo da profissão, mas quem sabe, não é?
      Deves ser a primeira pessoa que não se arrepia e nega categoricamente a possibilidade 🙂
      Obrigada pela visita. Beijinho.

      Gostar

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