The lobster: aos pares, tudo fica bem melhor

Colin Farrell protagoniza The Lobster, um filme absurdo de Yorgos Lanthimos que força a gargalhada do espectador, por esta altura, já incomodado com o retrato certeiro de uma sociedade decrépita. O romance como nunca o viu!

Em 1966, Robert Bresson terminara o ilustre Au hasard Balthazar (A grande testemunha, em português) com a comovente morte desse burro no seio de um rebanho.

Em 2007, na curta-metragem Dans L’Obscurité, Jean-Pierre e Luc Dardenne transformam esse estranho sentimento de conforto promovido pelo encontro do outro numa imagem de extraordinário choque.

Em 2015, Yorgos Lanthimos assassina Balthazar e extingue qualquer ligação afectiva entre humanos mais profunda do que aquela possibilitada pelas míopes convenções sociais.

The lobster é, portanto, um retrato surreal de uma distopia, arrepiantemente, familiar.

O filme começa assim com o tiro arbitrário de um burro e com a ida de David (Colin Farrell) para O Hotel.

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Abandonado pela esposa de longa data e vítima de uma sociedade que condena a solidão, o homem de bigode caricatural e expressão vazia é levado ao resort à beira-mar onde, no prazo de 45 dias, deve encontrar o seu novo par.

“Já pensou em que animal se prefere transformar?”, questiona, apaticamente, a gerente (Olivia Colman).

“Numa lagosta”, quase sorri David.

As regras são simples: todos aqueles que não conseguirem encontrar alguém a quem se juntar são transformados nas suas escolhas animais: ser solteiro é intolerável.

The lobster é, por isso, e antes de mais, brilhante na caracterização perspicaz de uma sociedade que pela sua estranheza evidencia a irracionalidade da nossa familiaridade.

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Sem meios-termos e obcecada por essa máxima de que “tudo é mais fácil quando se tem à disposição um par – desde logo, um par de mãos”, a sociedade criada por Lanthimos versa sem pudor a nossa própria vontade de quebrar a individualidade.

“Se surgirem problemas, crianças podem ser fornecidas”, informa a orientadora do processo.

Entre uma gargalhada contida e a apreciação pelo trabalho geométrico de Bakatakis, semeia-se um pensamento triste, quase irado, na percepção de que esse belo absurdo que, até então, tínhamos observado roça muito mais a realidade do que a sua versão alternativa.

Neste filme, o humor negro confronta-se com o verdadeiro choque.

A sua estranheza desperta, simultaneamente, um riso cheio de ironia e um estado de horror aos nossos dias.

À [fascinante] expressão fria de Farrell, soma-se uma narração paralela indiferente, mas não infrutífera.

The lobster vive de opções binárias que ultrapassam o enredo para se alojarem na sua própria arquitectura.

Um protagonista masculino narrada pela sua futura amante; dois grandes capítulos da sua existência; derradeiramente, a visão ou a cegueira que escurece o grande ecrã.

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Na floresta, sobrevivem, é claro, os rebeldes que se revoltam contra esse sistema severo.

A sua organização é, contudo, nada mais do que o reflexo simplista – mais uma vez, binário – da norma.

O romance que, eventualmente, coroa esta longa-metragem é, deste modo, uma exposição ágil e relevante dessa anormalidade que está subjacente a qualquer relacionamento.

Até ao último segundo, The Lobster rompe a rotina cinematográfica, deixando o espectador enclausurado no seu final aberto, dedutível, mas inexplicável.

Visual e sonoramente, encantador, o filme que estreia Lanthimos na língua inglesa, permite que, no seu caos organizado, germine uma discussão urgente capaz de alterar o modo como nos vemos a nós próprios.

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