Às pessoas [e estórias] que 2015 me trouxe

Tremia, levemente, face ao ecrã iluminado que exigia a rotura dessa área arroxeada de conforto. 2015 engoliu-a, enchendo-a de pessoas e estórias notáveis, capazes de transformar o modo como sente, vê e vive o mundo!

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Ajeitei o camiseiro de denim gasto. Penteei os fios amolecidos pela rara, mas certeira, humidade lisboeta.

Fitei o relógio calado. Quatro horas. Pressionei o círculo verde preenchido pela silhueta arredondada de uma conversa.

“Olá. Muito obrigada pela sua disponibilidade”, sorri, ansiosa. “Olá, Isabel. Está a ouvir-me bem?”, pestanejou a criadora das sabrinas mais caras do mundo do outro lado da conexão extraordinária.

2015 foi um milagre. Ousado e capaz, arrepiante!

Filipa Júlio foi a primeira dessas aventuras excêntricas que marcaram a extinção do meu reconhecimento salutar dos limites.

Do Porto a Lisboa, unidas por um fio invisível, ultrapassamos a hora marcada, conversando sobre filmes, sapatos e paixões com a doçura do inimaginável nos lábios.

Depois, seis outros contributos irreais. Voei (virtualmente) até à Suiça, tomei o comboio até São João da Vila, reuni as vozes que se faziam ouvir em torno desta interessante figura.

Estávamos, então, em Fevereiro, imersos no início do ano e na recém-descoberta euforia da investigação.

Arrebatada por essa força esmagadora que havia pouco tinha visto atenuada, perdi-me nos campos de cultivo dos chás mais antigos da Europa, descobri uma autoria alternativa de quem transforma as vidas comuns em livros memoráveis, explorei uma Lisboa ao lado da cidade trivial pelos olhos da presença árabe na Península Ibérica.

Em casa, tão pouco exausta desse imenso gosto que é a colecção de estórias, encontrei o magnífico olhar do primeiro português a ser distinguido com o prémio National Geographic para Melhor Fotografia Lugares, em 2009.

Num golpe de pura inconsciência, lá o encontrei em Londres, somando a 2015 mais algumas experiências singulares.

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A este ano comprido fiz, ainda, questão de acrescentar um mês de vidas açorianas dissecadas ao detalhe, das quais se destacam quatro dos cinco candidatos à Assembleia pelo círculo dos Açores.

A rondar Setembro, já refugiada na capital e no universo de possibilidades que me moram à porta, terminei com uma indescritível visita à Mesquita Central de Lisboa e com a minha primeira aula de meditação.

“Vêm para a União Budista?”, perguntou o homem alto ao grupo de amigas especadas junto ao intercomunicador.

Seguimos no elevador pequeno até a um último andar, onde, à vontade, fiz do gravador e do bloco de notas próteses excêntricas do meu corpo.

Desaparecidos estavam os dias do nervosismo inicial que marcara a reportagem a um dos mais fabulosos eclipses do sol de sempre…

Quase insolente – entenda-se parada no cruzamento entre o ser mordaz e a ousadia – terminei esta aventura anual com três semanas secretas de questionamento.

Mais uma vez, embrenhada no mundo político, arrecadei mais uns testemunhos de um projecto inovador em Portugal: a ArroiosTv.

De coração cheio, irritado e preparado para o ato sensato do escrutínio, fiz acompanhar todos estes dias de 206 estórias por aqui.

Entre 26 mundos imaginários e mais de 61 operações factuais, fiz esgotar os dias deste ano com pessoas e estórias excepcionais.

A morder-nos os calcanhares, 2016 insinua-se, repleto de incerteza e sensualidade. 

Que não lhe faltem horas, estórias e conflitos para que, daqui a 365 dias, possa estar, de novo, sentada à secretária, de roupão e pantufas, a preparar o encerramento doirado de mais um círculo bem conseguido.

Bom ano!

Para ouvir: Carousel #1 de Federico Albanese
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